sexta-feira, 19 de abril de 2013

encontros multifacetados

Encontrou-a na praia. Era uma quarta-feira, bem no finalzinho do dia, naquele momento em que o sol parece que está se recusando a ir embora, demorado, preguiçoso. 
Um raio loiro, que assim como o sol, parecia querer postergar a existência daquele dia, daquele momento,  rodeada de uma energia diferente, quase uma paz, uma vontade de viver que se transbordou no mergulho que deu, assim que chegou. Atirou a bolsa ao chão, sem sequer olhar quem estava ali, e mergulhou, cheia de uma intensidade, um gingado atípico, sua felicidade era uma coreografia de escola de samba. 
Forçou-se a desviar o olhar. Que diabo era aquilo que estava sentindo? Tinha prometido que jamais se sentiria assim novamente. Pensou que provavelmente a moça nem olharia em sua direção. Já tinha até notado que os poucos que restavam nas areias, àquelas horas, já estavam com seu olhar focado na menina-sereia. Bobagem sua pensar que poderia ganhar ao menos um olhar da musa.
Foi embora com uma sensação de revolta, antes do sol se pôr por completo. Estava com raiva daquela mulher, que aparecera apenas para lhe tirar da paz que se encontrava. Mas paz? Que paz? Já estava mais que na hora de assumir sua apatia, seu desgosto pela vida, sua falta de amor por tudo aquilo.
Como de costume, tornou ir a praia no dia seguinte, forçando-se a acreditar que ela não estaria lá. Que nunca a tinha visto antes e jamais a veria novamente. Seu pessimismo era acalentador, um refúgio. Entretanto, ainda sim, quanto mais o tempo passava, ia ficando com uma sensação idiota, um bater de asas no estômago. Ela não viria, tinha certeza. Mas o arrepio só aumentava a medida em que a areia ia se avermelhando, a náusea era tanta que quase perdeu o momento em que o raio loiro passou pela segunda vez.
Por um segundo não acreditou naquilo. Não podia ser possível, já havia se convencido que nunca mais iria pôr seus olhos nela. E ela estava ali no mar, sorrindo, quase que convidando-o para entrar na água gelada. Fazia tanta festa nas ondas que parecia criança. E foi assim, de impulso, que levantou e se viu andando, meio descrente, até o mar. É claro que a loira nem notava sua presença, sentiu que ela estava realmente alheia a tudo, como se estivesse se reestruturando, roubando do mar um pouco da sua força e vitalidade, ali, parecia parte do cenário, como se nunca tivesse saído.
Fechou os olhos e sentiu aquela energia. Era boa, parecia pura. E pela primeira vez em tanto tempo, viu-se leve. Deveria falar com ela? Quando finalmente abriu os olhos viu que havia desaparecido.
Não havia mais bolsa na areia, nem havaianas desencontradas no caminho. Não havia rastro, nem sinal. Devia ter ido embora. Havia ficado tempo demais de olhos fechados.

A verdade é que não se importou mais em saber onde a loira tinha ido. Sentiu um sorriso brotar no seu rosto novamente, meio torto, por falta de uso, mas incrivelmente genuíno. Estava feliz, tinha encontrado a paz que perdera naquela tragédia que lhe roubara seu amor, há tanto tempo atrás. E dessa vez foi embora no cair da noite, estranhamente sereno.
Nunca mais tornou a ver seu anjo loiro, ainda que todos os dias, quando chegava o horário do sol se pôr, sentisse aquela mesma sensação de ansiedade tomar-lhe o estômago, apenas para sorrir quando percebia que ela não viria, novamente.
Apesar disso, sabia que no fundo, não importava. Tinha se reinventado depois daquilo, voltado a viver, a apreciar a maravilha que era existir. Quem sabe um dia não a veria na fila do pão, ou comprando uma revista na banca de jornal? Quem sabe um dia não conseguiria falar com ela? Quem sabe um dia...