Mágicos foram os primeiros tempos, aqueles das primeiras descobertas, respondi tanto sobre mim e ouvi tanto sobre você que nem sem mais onde termino eu e onde lhe começa. E no meio dessa dança (que eu, obviamente, nunca dominei), fui me deixando levar.
Não foi por falta de aviso, -cilada! corre! - disseram-me os amigos e até mesmo os que não tem porque se importar. E eu, louca, intensa e maravilhosamente deslumbrada fui mergulhando, perdendo o fôlego uma, duas, três vezes; rindo boba. Fui até onde pude, eu juro. Fui até onde consegui suportar.
E se hoje eu desisto é só porque você brilha demais pra mim. Esse seu brilho lindo, apaixonante, que lhe eleva três metros do chão é mais do que eu posso controlar. Na verdade, o que me mata é isso, é saber que mesmo que eu queira, eu não devo controlar. É lutar contra minha própria natureza a cada segundo. Você me implora pra que eu feche os olhos, logo eu, que não os fecho nem pra dormir.
Admito também a culpa de ter nos matado de sincericídio, nesse mundo em que "mentiras sinceras me interessam", brincamos demais com a realidade bruta, aquela que machuca, que fere. E se me corto até com papel, quem sou eu pra tentar fazer malabarismos com facas afiadas?
Ah, como você me machucou. E eu sei que ainda vai demorar bastante pra passar. Só me contento por dessa vez não querer, desesperadamente, a sua mão pra me ajudar a levantar. Não que não precise, longe de mim supôr uma coisa dessas. Só não quero. E não cairei aqui no clichê de dizer que "a mão que te afaga é a mesma que apedreja", porque você nunca me apedrejou, muito pelo contrário. Acho que se houveram pedras, elas foram atiradas por mim, pela minha fala ríspida e por um coração definitivamente magoado.
Nunca derramei uma lágrima. E não me vanglorio por isso. Se pudesse controlar, teria chorado um rio inteiro, só pra tirar esse sentimento de mim. Mas não posso. E continuo me apegando a cada mínimo gesto de carinho, cada monossílabo que você me dedica, na esperança de que eu sossegue e lhe deixe em paz. E é disso que eu, que sempre fui dada a excessos, venho tentando abrir mão.
Não suporto mais as tantas vezes que você volta atrás, que você dá um meio gesto, que você se esconde. E desisto. Desisto porque meu rosto já está vermelho de tanta pancada que eu levei, depois que decidi, lá nos primeiros tempos, colocar a cara a tapa. E hoje, juro que vou dormir sem a menor expectativa para a justificativa de amanhã.
Prometo.
E você sabe que eu cumpro todas as minhas promessas.
Estou soltando a ponta dessa corda antes que eu caia na lama. Você é forte demais pra mim. Você brilha demais pra mim. Sinceramente, eu não mereço você e acho que nem quero merecer. Porque pra isso eu tenho de brigar demais comigo mesma e eu também não mereço esse sofrimento todo não.
E olha, que irônico, acabei de derramar a primeira lágrima aqui. Pelo menos fico feliz em perceber que ela não é sua, ela é minha, e ela brotou dos meus olhos após eles se questionarem quem são e no que se tornaram.
Sim, o problema sou eu. E é por isso que eu quero ir embora.
E você, continue brilhando, por favor. Mais que isso, continue encantando o mundo.Você nasceu pra isso, eu sei. Continuo lhe amando, esse estranho amor que você me ensinou a cultivar. Só não quero mais vivê-lo. Porque, "sim, até mesmo o amor cansou de sofrer".