Andava distraído quando a viu de relance, esquiva como um
gato de rua, magra como sei lá o que, visivelmente destruída. Ela o viu também,
ele sentiu. E correu. Rápido demais pro seu porte, voou, quase. Ele não a
alcançou, com seus pulmões de fumante de 30 e tantos anos. Arfou até chorar.
Atacou-lhe a asma, estalaram os joelhos. Doeu-lhe fundo o coração.
Nunca mais a viu, viva.
Ah, como sentia saudades da época em que tudo era bom. A
primeira fase, em que o mundo de nenhum dos dois havia desmoronado. Já não
saberia mais precisar quanto tempo a calmaria havia durado. Pouco. Esse era o
único espaço de tempo que conseguia medir. Pouco demais.
E então vieram as sucessivas mortes, o pai, o avô, a avó, a
tia mais próxima e por último, a mãe. Naquele acidente horrível. Tudo isso em
menos de seis meses. Ela vivia triste, ele se lembrava, não tinha mais voz.
Estava constantemente chorosa, num sussurro lamurioso. Parecia sempre prestes a
desmaiar, acuada, com medo da próxima perda. Ah, como ele tentou. No fundo,
achou que conseguiria. Havia sonhado demais.
Sabia hoje que era besteira acreditar que pelo menos por um
segundo, tivesse tido alguma chance. Ela mesma disse por várias vezes que não
conseguiria. Aceitou o primeiro comprimido de um desconhecido num parque. Ele
se auto intitulava guru. A pílula da alegria, segundo ele, a levaria pra um canto
distante da sua mente, que estava genuinamente feliz.
E então quis mais e mais. E não tardou a conhecer os amigos
do guru. Todos como ele. Passava noites e dias mergulhada nesse transe. Não
voltava mais pra casa nem na hora do jantar. Sumiu.
Se fechasse os olhos, sentia o cheiro nojento do ambiente em
que fora buscá-la a primeira vez. Deu-lhe banho, beijo na testa. Ela chorou,
pediu desculpas, prometeu que não faria mais. Fez-lhe um chá, endireitou-a e a
pôs na cama.
Acordou e já não estava mais lá.
Uma semana depois ainda não havia voltado. Preparou um
anúncio, com aquela foto linda que havia tirado nas férias de verão. Ela
parecia uma poesia. Bonita demais, mas imóvel, o sorriso vidrado na foto. Parecia
ali já distante. Inalcançável.
Jurou que não se cansaria. Saiu em seu encalço por tanto
tempo. Trazia-a de volta, dava banho e fazia seu chá. E como fez chás... Um dia
levou-a pro lugar que tanto temia. Fugiu de lá também. O médico avisou que
havia tentado contra si mesma um punhado de vezes.
Um dia, voltou sozinha pra casa. No meio de uma reunião de
amigos. Entrou como se nada tivesse acontecido. Tomou banho e lhe pediu um chá.
Conversou até tarde como se estivesse bem. Encheu-lhe de esperanças.
No outro dia, sumiu. Dessa vez pra sempre. Deixou-lhe um
beijo na testa e um bilhete escrito obrigada. Até mesmo a letra já não era a de
antes.
Acordou sobressaltado com um telefonema. Tinha esquecido a
chaleira no fogão. Era do Instituto. Aquele, que morria de medo até de falar o
nome: IML. Havia um corpo, havia uma foto com um nome no bolso da calça velha.
Pediam que fosse fazer o reconhecimento.
Apagou o fogo e bebeu, calmamente, o que seria o último chá
de sua vida. Chorou.
Magra, suja, esquisita. Mas nunca feia. Gelada diante dos
seus olhos. Parecia serena. Dormente. A próxima perda era ela mesma. E ele sempre soube disso. Perdeu-se,
entregou-se aos seus demônios. Autodestrutiva, lindamente obstinada. Partiu.
Aquele rosto de anjo no caixão de madeira escura, flores
brancas. Vestido branco. Um punhado de terra. Acabou. Algumas pétalas de
flores. Tudo parecia girar. Não havia mais sentido. Sete palmos de terra.
Sentiu um calafrio. Doía. Parecia estar morrendo junto. Findou-se a cerimônia.
As pernas grudadas no chão, incapazes de se moverem. Queria ir também. Não foi.
Jogou a chaleira fora.
Junto dela também o coração.