terça-feira, 1 de março de 2011

miss you


Pai, você nunca foi meu herói, muito menos meu bandido,

Nunca foi motivo de orgulho pra mim, pelo contrário, confesso que tinha pavor das festinhas de Dia dos Pais, onde sempre me perguntavam por que eu havia levado meu avô, e eu tinha que explicar pacientemente, que você não era meu avô, era meu pai.

Nós não nos damos bem e isso tornou a nossa convivência cada vez mais complicada. É, você quando briga é pra valer. Não importa se os impropérios proferidos estão direcionados a uma criança. Mas felizmente, lágrimas não deixam fendas na face, talvez no coração e você, é claro já percebeu bem isso.

Não é que eu não goste de você, apesar de você achar que não. A verdade é que eu tenho um pouco de medo, não aquele medo normal que os filhos sentem dos pais; É um medo de me aproximar, de dizer alguma coisa. Você, tão calado, meditativo tem uma aura sábia, uma aura que no fundo me incomoda. Acho que eu queria ser como você, ao menos nessa parte.

Você chora, talvez mais que eu. Foi estranho a primeira vez que eu te vi chorar. E o mais estranho é que eu nunca vi minha mãe chorar. Você, apesar de ser sincero e duro demais também é extremamente sensível.

Guardo muitas mágoas de você, guardo na lembrança um tapa no rosto que recebi, recordo-me muito bem alguns adjetivos que já utilizou para me descrever (estúpida, ignorante, teimosa, cruel e ‘meu orgulho’), penso muito no seu sorriso.

Sinto sua falta, não sempre, mas sinto. Queria tanto ser aquela menina pequena que você ensinava as capitais do Brasil, que queria que fosse advogada e falava tudo sobre as batalhas da 2ª Guerra.

É pai, acredito que eu não vá ser advogada e as capitais brasileiras não são cobradas em provas de vestibular. Mas você, com esse seu jeito enigmático, meio afastador de pessoas, não conseguiu me repelir por inteiro. Uma parte de mim sempre estará no seu colo ou na mesa da sala, jogando dominó. Uma parte de mim vai ser sempre aquela Gabriella que brigava e no fim, mesmo depois de alguns meses, pedia desculpas.

A maior parte de mim é você e nós sabemos disso, a frieza, o calculismo paradoxal (que se converte em lágrimas quase sempre), a facilidade de aprendizado, o sorriso, os olhos, o nariz, o formato do rosto e até meu nome. Tudo é você.

Agora, eu entendo que devo sim me orgulhar de você. Que já idoso fez tudo para que eu pudesse estudar em boas escolas, que morasse bem e tivesse de tudo. Que trabalhou por toda a vida e que com 85 anos não parou de trabalhar ainda. Hoje eu finalmente compreendo sua forma de ser, seu aquarianismo nato, mas cheio de boas intenções.  Enfim, enxergo o quanto você gosta de mim e percebo que todas aquelas discussões eram só a sua forma de me mostrar o certo e o errado.

Torço para estar errada, mas acredito que você não vai ter tempo de me ver realizando todos os meus sonhos. Mas saiba que, quando, inevitavelmente você se for, vai estar sempre no meu pensamento. Não como o melhor pai do mundo, porque você não foi. Mas como o seu Venâncio que sabia tudo de História e tinha bons palavrões na ponta da língua também. Que não pegava em baralho, mas me ensinou a jogar pif-paf. E que, acima de tudo, me ensinou como ser quem eu sou hoje. Mostrou-me, mesmo condenando um pouco, como é bom ser íntegro e responsável, como é bom trabalhar e ah... antes que eu me esqueça. Como é bom ser vaidoso.

Eu te amo, obrigada por tudo,

Gabriella, a caçula.

Nenhum comentário:

Postar um comentário