terça-feira, 20 de setembro de 2011

"porque era cedo demais e nunca tarde"

O medidor de batimentos cardíacos já não fazia quase algum barulho; sabia que o fim estava próximo.
Entretanto, via-se só, sem qualquer rosto para gravar na memória de seus últimos segundos. Estava partindo para um mundo desconhecido sem qualquer voz a dizer-lhe que tudo ia ficar bem. Foi aí que viu que nada iria ficar bem, porque não poderia desperdir-se daqueles olhos verdes que tanto a inspiravam, que por vezes pararam seu pensamentos e fizeram-na navegar num mar de águas profundas.
Estremeceu com a memória e estranhou seu súbito medo. Há tanto queria a morte, ansiava por ela; conseguira até mesmo convencer seu corpo a morrer e agora, em vias de ter o que queria, necessitava desesperadamente tornar a viver.
O paradoxo da alegria imersa na dor inundou seu pensamento. Sentiu-se demasiadamente desperta, mais que nos últimos 2 anos. Viu-se em vias de recuperar-se. O que a animava era a expectativa de vê-lo outra vez, de sentir aquelas mãos entre as suas. Quase se levantou e foi embora, quase. Lembrou-se então que não poderia mais observá-lo, nem senti-lo. Ele, assim como tudo o que importava para ela, estava morto, perdido nos braços de um além desconhecido. 
Abraçou a concórdia interior e sentou-se delicadamente nos braços negros da morte. Por um minuto, sentiu que ele estava ali e então o frequencímetro silenciou-se completamente.

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