quinta-feira, 8 de março de 2012

descompostura (o primeiro).

Essas tantas lágrimas que formam o rio que devia ser de março, mas é de janeiro.
Janeiro, rios, choros. E março vem cheio de águas, que apagam cada calor bonito de janeiro. Calor é a marca dos distantes montes, tão claros a ponto de iluminar qualquer espírito infame. Só que ela já está tão cheia desse tal rio que Chico logo avisa. Não aceita esse tal de janeiro por lá, não; porque janeiro já partiu; e quando se vai, até mesmo o velho Chico sabe, não há retorno.
E nesse vai-e-vém, as águas de março ligam-se aos rios de janeiro bem na beira de seus olhos, (que já incapazes de ver ao longe, agora se tornam plenamente embaçados); trazendo toda uma confusão de maremotos e explosões. Explosões de águas, de cores, de temperos; temperamentos difíceis que se encontram ardilosamente preparados, indevassáveis.
Dessa pororoca da emoção nasce o salgado, a angústia sofrida, e não menos importante, a dúvida, sua fiel companheira. São águas que falam; que gritam sussurrando pela volta de gargalhadas estrondosas que, apavoradas, fugiram.
A enxurrada lavou até a última dessas, que talvez tenham até gostado de dar uma pausa em seu trabalho exaustivo. Querem agora os bastidores! Desejam agora que as cortinas se abram para outro espetáculo, cheio de máscaras e expressões contidas.
Uma salva de palmas para a nova atriz, que agora vive de atuar. Ou atua para viver, já nem sabe, só sabe que entregou a alma ao teatro. E vive assim, de voz impostada (sem embargos, por favor), lábios contraídos, repleta de um olhar meio-nem-sei-o-quê, aquele que só observa.
E percebe que encarar ficou ainda mais difícil; e não encara porque lhe dá medo; e cai e não se levanta. Improvisa uma cena de dor, no clímax da peça, para que possa, ao menos, demonstrar um mínimo da emoção que nela transborda.
E quando finalmente consegue se erguer, entende os fatos da vida como espinhos de rosa, os quais, apesar de bonitos, dilaceram a carne e provocam feridas profundas, que quando sanadas sempre produzem feias cicatrizes. Pensa que tem um espinho no coração. Deem-na um cravo, logo! Para que brigue com as rosas (ou para que descubra que há amor no meio de toda essa luta).
Todavia, se continuar a escapar, e a lição anterior nada lhe ensinar, arranquem-lhe a máscara, fechem suas cortinas! Deem um tapa ferrenho na face. Batam forte! Façam-na a entender que ninguém vive de atuar. E somente então, matem-na!
Salpiquem, por último, canela por seu corpo; para que ao menos os ratos possam reconhecer sabor, uma virtude ao menos, em sua tão intrincada essência.

Um comentário:

  1. se minhas interpretações estiverem corretas, já que nao é facil analisar um texto tão profundo quanto esse, essa atriz merece mesmo uma salva calorosa de aplausos. não digo pela escolha, que só o tempo dirá se foi correta, mas sim pela coragem que é, no mínimo, admirável. espero que saiba que a platéia torce muito por essa atriz da qual, ainda que tenha se passado pouco tempo, morre de saudades. fica o vazio. o silêncio que a falta das risadas estrondosas provoca. nao nos deixe sem seus textos, gabi montenegro. hahaha um beijo.

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