quinta-feira, 23 de agosto de 2012

meus bons amigos.

'Nossos sonhos, realidades
Todas as vertigens, crueldades
Sobre nossos ombros
Aprendemos a carregar
Toda a vontade que faz vingar
No bem que fez prá mim
Assim, assim
Me fez feliz, assim...'


gosto muito de narrações.
gosto mais ainda de escrever cartas, as quais, geralmente não envio a ninguém.
cartas narrativas, algumas, notoriamente invencionices bobas da minha cabeça, já outras, nem tanto assim.
hoje, propus-me uma coisa diferente. certa de que somente isso me faria dormir, tirar esse pensamento fixo de 'preciso escrever isso', que vem me perturbando até nos sonhos.
decidi então, contar uma história, real, nem bonita nem triste, tampouco simples. uma história de gente que viveu, que passou por situações complicadas, mas também por ocasiões incríveis. minha história.
faço isso porque é preciso revolver a importância de personagens, rememorar o que certas músicas ouvidas a meia noite sopram diariamente em minha mente. finalmente escrever cada momento, não sei se na intenção de imortalizá-lo, mas ao menos, de criar um vínculo eterno, digno de ser chamado elo. um vínculo que apesar de tudo, jamais poderá ser apagado. senti que devia isso a mim e aos tantos que trilharam esses 365 dias comigo.

não sei ao certo como começou, a verdade é que escrevo isso de olhos fechados (ainda bem que já decorei essas malditas teclas.), para que possa me lembrar mais facilmente.
acho, que tudo começou quando eu roubei o lugar de alguém que eu não devia ter roubado. ou ainda, quando eu comecei a ignorar solenemente as malditas aulas de química, conversando com a pessoa que se sentava ao meu lado.
a verdade é que como começou, não importa, a questão é como se transcorreu.
ah, as primeiras conversas, repletas de um silêncio interno, cheias de um medo fundado ou infundado, sei lá. como quem se diz 'não posso te contar isso, ou aquilo', conversas tão sem quês nem porquês, e na verdade eu achava tudo aquilo tão engraçado, tão diferente do que eu já tinha visto.
não fazia sentido todo aquele segredo em torno do que já era óbvio, mas vieram-se as festas de sala, o carnaval e todas as suas implicações que desfizeram, ao menos em parte, essa aura de desconfiança e então tudo pôde fluir.

lembro-me bem do carnaval no salão do poras; dos pastéis fritos, das queimaduras de quem os fritou, mas ainda não tinha dado certo.
lá pelas tantas surgiu o rastapé e seus preparativos.
a banda, o arroz com molho, os colchões da roça, a escola, os ensaios no araês (incluindo o transporte do som ida e volta), e ainda esperava-se que tirássemos as melhores notas, fôssemos a melhor turma e nos destacássemos em simulados.
e eu já não sabia mais de nada quando de repente, não havia mais decoração, e a banda? quem iria assinar aquela porra toda. mas não piramos.
colocamos a barraquinha na alameda e nos saímos bem até demais.
quem lembra do rastapé? eu lembro de passar mal, depois do décimo energético da noite, da noite anterior virada por ter ido pro show da expomontes (nada como dormir as 4 e acordar as 6).
e o rastapé passou ao som de tarraxinha e com os belos rostos da nossa banda de 500 reais.

saímos vivos! e olhe lá, tinha até passado em matemática.
então pareceu que tudo tinha se acertado, entre despeitos e afins, tudo tinha dado certo não? iríamos viajar! nem precisa dizer que não fomos, porque estava implícito desde a proposta da ideia. HAHAHA
então foram-se os jantares preparados por um par de mestre-cucas que vou lhe dizer, foram praticamente minhas mães e pais no referente à alimentação. jantares com sobremesas um tanto inusitadas, diga-se de passagem.
foi a época dos maus vícios, hahahaha, que nunca deixaram de permanecer, é verdade. foi a época das coisas erradas, de computadores alheios. foi a época que eu, sinceramente, parei de estudar.
e então veio o cursinho, ou pelo menos, uma instituição chamada de pré-vestibular. porque ali, foi pré-vida, pré-farra de faculdade ou sei lá.
a verdade é que eu NUNCA assisti mais de dois horários por dia. ou melhor, eu só assistia história do brasil e ainda sim, só o fazia porque não encontrava ninguém pra sair comigo.
foi a época de falar ao celular na pracinha, de promessas tão quebradas. uma época de segredos e mentiras, que até hoje permanecem ocultadas por motivos fúteis. foi a época de comer pastel sem fome, de comer cachorro-quente ruim. de percorrer longas distâncias em busca de abrigos, seja pra qual motivo fossem. até passar a perna no cara da recepção em prol de uma apostila, eu passei.
as mais incríveis situações, os medos de ir na mercearia e cruzar com gente que sabia de mais. o pavor de quem quer que tivesse visto ou pudesse ter ouvido. tudo bobagem hoje, tudo coisa passada.
não raro os estudos em casas alheias. e que estudos. depois ficaram mais solitários. a medida que tornaram-se mais mafiosos. 

nesse meio de tanta emoção, de tanta conversa que arrepiaria até os pêlos da nuca, carregadas pra sei lá onde, pelos ventos da esquina. empunhamos tantos vaga-lumes, que hoje residem em um lixão qualquer. e de beber tanto roskoff lemon (castigo por querer vender bebida falsa), orloff e qualquer etílico que aparecesse, de dar pt e sujar sofá dos outros e de não se lembrar mais de nada no dia seguinte, hoje me constituo.
por sempre achar um abraço, alguém que pegasse um rodo pra puxar a água que eu pela milésima vez, derrubava do meu copo, pessoa que apertasse minha garganta pra me fazer desmaiar, ou comprasse um quilo de chocolate pra eu melhorar, eu agradeço eternamente.
pelos papos demorados ao telefone, pelas redações feitas no messenger às duas da madrugada, pelas vezes que me chamaram ao portão pra simplesmente olhar a noite, falar besteira. pelos encontros no meio do caminho, num vento terrível, só pra falar qualquer coisa, tornei-me melhor, mais certa de tudo, mais confiante. ah, como foi bom terminar o ano num reveillon tão diferente, tão silenciosamente feliz. ah, como jamais poderia ter-me arrependido de ter esquentado minha cabeça no sol rachando. como poderia abandonar o que foi a melhor parte de mim? engraçado talvez, tenha sido que tudo acaba com o carnaval, assim como começa.
nesse um ano que foi quase uma vida.
nesse um ano que mudou tudo.

mas 'saudade é bom, melhor que caminhar vazio'. saudade vêm de lembrança e lembrança vêm do que já te fez imensamente feliz. obrigada 2011, por deixar saudade.

domingo, 19 de agosto de 2012

maldita estante de auto-ajuda.


Talvez sejamos realmente, a soma de nossas escolhas, ou ainda, das escolhas que nos impuseram. Num presente em que nossa matéria encontra-se rodeada de incertezas e caminhos diversos, temos medo de mudar, de nos enveredar pelos rumos estranhos que avistamos constantemente.

A verdade é que nem sempre, somos capazes de fazê-lo bem, desprendidos de um senso que anseia pelo familiar, pelo conhecido. Queremos de volta tudo aquilo que já vivemos, rememoramos tanto o passado ao ponto de torná-lo uma doença melancólica, que ao invés de fortalecer, deprime, desubstancia.
Sinto falta daquele lirismo velado com que eu me pronunciava há tempos. Não é mais tão fácil quanto antes, rabiscar um pedaço de papel velho e dali extrair minha alma, mostrando tudo o que existia nela. Acho até que ficou meio obscurecida, ou porque não, sem perspectivas, desse presente meio decepcionante, que não conserva mais qualquer traço daquilo que já foi vivenciado.

E se hoje me pergunto o porquê disso, vejo que tudo está intrinsecamente ligado ao que escolhi, ao que trilhei. E descreio mais em destino e acredito mais no leque de possibilidades que a vida nos expõe. Posso sim mudar, é verdade, sem que essa mudança esteja escrita num tal Livro da Vida, como costumam me fazer acreditar. Ou talvez este de fato exista, e seja aquele que limita a possibilidade, que faz com que eu, apesar de possuir a possibilidade de mudar, não o faça, porque não prevê isso.

No fundo, acho que toda vez que penso nisso, fico com uma sensação estranha, uma sensação de estar sendo constantemente testada e observada, e olhe lá, não me refiro a nenhum ente superior que rege isso tudo. Pelo contrário, falo dos próprios testes a que me submeto diariamente, sem esperar que sirvam para qualquer coisa.

E quem vai saber se fiz tudo certo? Não há. Porque não existe essa fórmula mágica do certo x errado que as mães tentam ensinar aos filhos. Ninguém é perfeitamente correto. Se fiz qualquer coisa errada ontem e tenha medo do que isso possa repercutir, essa atitude, apesar de corrosiva, não tira o mérito de qualquer boa ação que tenha feito hoje. Temos de parar com os juízos de valor e começar a avaliar cada ato com novos olhos. Uma pessoa não é uma atitude, ela é um conjunto delas. E se teimarmos ainda em avaliar qualquer um por bom ou mau, que nos detenhamos então, ao conjunto.

Não sei se ando viajando demais, mas a verdade é que andava precisando dessa lição, por vir constantemente me perguntando ‘Será que sou tão má pessoa assim?’, acho que a resposta está justamente aí. Escolhi caminhos diferentes sim, se os mais difíceis não sei, todavia creio que poderia ter optado por algo mais fácil. Pratiquei diversas pequenas (ou nem tanto) ilicitudes durante minha vida escolar e, no entanto, hoje me vejo na posição que nunca acreditei que alcançaria. E, então? Será que isso me torna uma pessoa ruim, indigna de felicidade? E a resposta é não.

Porque estamos completamente em transição. Numa reinvenção tão complexa e paradoxal, capaz de nos vermos amanhã chocados com o que fomos anteontem. E, me desculpem os politicamente corretos e regressistas, mas a vida é progresso, a vida é errar sempre e acertar amanhã. A vida é rir de uma gafe cometida hoje para não cometê-la mais, ou continuá-la cometendo, talvez. Tudo é mutável às nossas percepções. Mas a verdade é que perdemos tanto tempo com julgamentos infames e sendo hipócritas, que nos esquecemos de analisarmo-nos como de fato somos e aí, continuamos a errar, sem aprender uma coisa nova sequer.

Não quero guardar meu passado num críptex, com eterno medo de um dia esquecer a senha e nunca mais poder vê-lo. Não. Quero poder moldá-lo, mexer nele, contemplar o que já fui, adaptá-lo ao que sou, torná-lo o que serei. Passado é sua massa de modelar, é seu novo-velho projeto, é antes de mais nada, um reflexo do amanhã, extraia dele seu melhor.


Sem mais por hoje.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

feche a porta, por favor.

nunca esteve tão difícil admitir que nunca houve a essencialidade tão falada nos tempos passados.
aliás, talvez nunca tenha estado tão fácil.

pela mesma porta aberta que se foram todos eles, sem qualquer exceção, pus-me a sair disso tudo também, abandonando um barco que há muito já virara canoa furada. foi bom.
compreendi tão finalmente, a real importância de laços sanguíneos, apesar de tê-los evitado por tanto tempo. pude perceber que quem sempre estará com você é quem foi colocado ao seu lado já ao nascer; aos outros que passam pelo seu caminho, têm eles apenas uma missão momentânea, efêmera (não lhes retiro a bondade de forma alguma, até porque seria incapaz de amá-los tanto, se não tivessem sido tão bons), que quando se acaba, determina também a partida desses tantos.

nunca tive dó de mim. acreditei sempre no poder das minhas escolhas, ainda que nem sempre as tenha determinado. assumo sim, que possuo a palavra final, a capacidade de desobedecer escolhas que me foram impostas e, se não o fiz, é porque talvez eu, de fato, as julgassem corretas.
não caio hoje, na besteira de acreditar que haja compreensão no mundo. porque já me foi provado que não há. as pessoas julgam sim, e cabe a você se esforçar para desfazer julgamentos ou simplesmente ir acreditando que talvez seja o melhor deixar que o tempo mostre o que virá.

se hoje não guardo mágoas é porque me esforço muito para não me recordar de momentos bons. sim, não dos momentos ruins, mas dos momentos bons, que deixam marcas, sentimentos, que deixam sobretudo, uma dor que vai-e-vém a menor menção, laços que já foram julgados como inquebráveis e se partiram facilmente ao menor esforço. não tenho mais ligado para os olhares estranhos e as ausências das pessoas, apenas prossigo.

se me via assim há algum tempo atrás? sim, me via. tive certeza desde o início.
se quis isso há algum tempo atrás? não, nunca quis.
então, por quê? porque foi assim que teve de ser.

o silêncio foi a melhor forma de não dizer o que estava sufocado. de não afirmar tudo aquilo que já me rondou o sono durante muitas noites. afastei-me porque não quero ouvir palavra de consolo ou alguém que diga que concorde, até porque não acreditaria mesmo. não quero ninguém que entenda. porque não devo satisfações à ninguém. porque, eu finalmente já consegui entender e aceitar.
e é isso, esse é o último pensamento sobre isso tudo. acabou.


"Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer".