Talvez sejamos realmente, a soma
de nossas escolhas, ou ainda, das escolhas que nos impuseram. Num presente em
que nossa matéria encontra-se rodeada de incertezas e caminhos diversos, temos
medo de mudar, de nos enveredar pelos rumos estranhos que avistamos
constantemente.
A verdade é que nem sempre, somos
capazes de fazê-lo bem, desprendidos de um senso que anseia pelo familiar, pelo
conhecido. Queremos de volta tudo aquilo que já vivemos, rememoramos tanto o
passado ao ponto de torná-lo uma doença melancólica, que ao invés de fortalecer,
deprime, desubstancia.
Sinto falta daquele lirismo
velado com que eu me pronunciava há tempos. Não é mais tão fácil quanto antes,
rabiscar um pedaço de papel velho e dali extrair minha alma, mostrando tudo o
que existia nela. Acho até que ficou meio obscurecida, ou porque não, sem
perspectivas, desse presente meio decepcionante, que não conserva mais qualquer
traço daquilo que já foi vivenciado.
E se hoje me pergunto o porquê
disso, vejo que tudo está intrinsecamente ligado ao que escolhi, ao que
trilhei. E descreio mais em destino e acredito mais no leque de possibilidades
que a vida nos expõe. Posso sim mudar, é verdade, sem que essa mudança esteja
escrita num tal Livro da Vida, como costumam me fazer acreditar. Ou talvez este
de fato exista, e seja aquele que limita a possibilidade, que faz com que eu,
apesar de possuir a possibilidade de mudar, não o faça, porque não prevê isso.
No fundo, acho que toda vez que
penso nisso, fico com uma sensação estranha, uma sensação de estar sendo
constantemente testada e observada, e olhe lá, não me refiro a nenhum ente
superior que rege isso tudo. Pelo contrário, falo dos próprios testes a que me
submeto diariamente, sem esperar que sirvam para qualquer coisa.
E quem vai saber se fiz tudo
certo? Não há. Porque não existe essa fórmula mágica do certo x errado que as
mães tentam ensinar aos filhos. Ninguém é perfeitamente correto. Se fiz
qualquer coisa errada ontem e tenha medo do que isso possa repercutir, essa atitude,
apesar de corrosiva, não tira o mérito de qualquer boa ação que tenha feito
hoje. Temos de parar com os juízos de valor e começar a avaliar cada ato com
novos olhos. Uma pessoa não é uma atitude, ela é um conjunto delas. E se
teimarmos ainda em avaliar qualquer um por bom ou mau, que nos detenhamos
então, ao conjunto.
Não sei se ando viajando demais,
mas a verdade é que andava precisando dessa lição, por vir constantemente me
perguntando ‘Será que sou tão má pessoa assim?’, acho que a resposta está
justamente aí. Escolhi caminhos diferentes sim, se os mais difíceis não sei,
todavia creio que poderia ter optado por algo mais fácil. Pratiquei diversas
pequenas (ou nem tanto) ilicitudes durante minha vida escolar e, no entanto,
hoje me vejo na posição que nunca acreditei que alcançaria. E, então? Será que
isso me torna uma pessoa ruim, indigna de felicidade? E a resposta é não.
Porque estamos completamente em
transição. Numa reinvenção tão complexa e paradoxal, capaz de nos vermos amanhã
chocados com o que fomos anteontem. E, me desculpem os politicamente corretos e
regressistas, mas a vida é progresso, a vida é errar sempre e acertar amanhã. A
vida é rir de uma gafe cometida hoje para não cometê-la mais, ou continuá-la
cometendo, talvez. Tudo é mutável às nossas percepções. Mas a verdade é que
perdemos tanto tempo com julgamentos infames e sendo hipócritas, que nos
esquecemos de analisarmo-nos como de fato somos e aí, continuamos a errar, sem
aprender uma coisa nova sequer.
Não quero guardar meu passado num
críptex, com eterno medo de um dia esquecer a senha e nunca mais poder vê-lo.
Não. Quero poder moldá-lo, mexer nele, contemplar o que já fui, adaptá-lo ao
que sou, torná-lo o que serei. Passado é sua massa de modelar, é seu novo-velho projeto,
é antes de mais nada, um reflexo do amanhã, extraia dele seu melhor.
Sem mais por hoje.
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