A madrugada era boa. Curava.
Ou se não curava, pelo menos tirava o foco daquilo que doía
tanto, a ferida aberta que implorava por um curativo. Então aquele sorriso
febril atacava novamente, e fazia questão de arrancar mais e mais pedaços
daquela carne maldita na frente do espelho, só pra ver seu sangue saindo.
Gostava da dor, apreciava tanto que por vezes, sentia seu
estômago enjoado, como se já tivesse esgotado, destruído. Já era uma máscara
pálida, doentia. Sentia tanta vontade de deixar de existir que não se
surpreenderia se um dia, simplesmente virasse pó.
Somente a madrugada curava. E era nela que aprendeu a viver.
Esquivando-se dos porcos vespertinos, das deusas matinais. Preferia os
morcegos, as corujas. Preferia o sombrio. Era assim que tinha de ser, se
quisesse continuar lutando. Mas por hora ia continuar brigando, precisava
daquilo. Precisava ver o sangue lhe subindo à cabeça, como se não houvesse
amanhã.
De riscos gostava e na corda bamba continuaria vivendo.
Talvez encontrasse um caco de vidro pelo caminho, no qual pisasse e sangrasse
ainda mais. Sangue impuro para uma dor legítima. Era estranho, era bonito.