quinta-feira, 27 de setembro de 2012

fixação.


A madrugada era boa. Curava.




Ou se não curava, pelo menos tirava o foco daquilo que doía tanto, a ferida aberta que implorava por um curativo. Então aquele sorriso febril atacava novamente, e fazia questão de arrancar mais e mais pedaços daquela carne maldita na frente do espelho, só pra ver seu sangue saindo.

Gostava da dor, apreciava tanto que por vezes, sentia seu estômago enjoado, como se já tivesse esgotado, destruído. Já era uma máscara pálida, doentia. Sentia tanta vontade de deixar de existir que não se surpreenderia se um dia, simplesmente virasse pó.
Somente a madrugada curava. E era nela que aprendeu a viver. Esquivando-se dos porcos vespertinos, das deusas matinais. Preferia os morcegos, as corujas. Preferia o sombrio. Era assim que tinha de ser, se quisesse continuar lutando. Mas por hora ia continuar brigando, precisava daquilo. Precisava ver o sangue lhe subindo à cabeça, como se não houvesse amanhã.

De riscos gostava e na corda bamba continuaria vivendo. Talvez encontrasse um caco de vidro pelo caminho, no qual pisasse e sangrasse ainda mais. Sangue impuro para uma dor legítima. Era estranho, era bonito.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

de loucura, de doença, de amor, que é a pior de todas elas.

de loucura, de doença, de amor, que é a pior de todas elas

amava tanto que doía.
na cama, era pior que mulher-dama.
batia, mordia, chupava.
de uma vez ela marcava
tudo aquilo que possuía.
não se importava com baixaria
de ciúme, adoecia, chorava, se lambuzava.
e ah, como gritava.
e se não avisasse, o tempo fechava,
se saísse depois de a ver,
nem que fosse pra ir ao hospital,
pra ela não adiantava, era pecado capital.

e cega não via
o amor desvanecer,
o outro lado sumia,
por vezes se escondia,
só pra não ter de sofrer.

e o tempo foi passando,
sua loucura, aumentando
chegou a lhe cortar as roupas,
quebrar-lhe os perfumes,
só pra não lhe ter ninguém olhando.
um belo dia,
o outro lado se decidira, embora iria.
disse-lhe adeus.

não teve nem choro e nem vela,
e com uma fita amarela,
jurou de morte assim que a deixou.
viu seu mundo se acabar,
e sua ira se perpetuar.
teu riso, amarelou.

e assim passaram-se dias, definhando, morrendo.
suspirava de dor, e foi gemendo que o encontrou.
nos braços de outra, horrenda vadia.
súbita paixão aflorada.
remorso certo, por menos não deixaria.

matou os dois ali mesmo, e ainda riu de prazer
da puta, que nos lençóis se contorcia.
e dele, que horrorizado implorava.
deu dois tiros, bastava.
matou-se ao final. sozinho seu homem não ficaria.
atrás dele iria correr, nem que preciso fosse fazê-lo sofrer.
era seu e ponto final.