segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

passar bem.

Escrava tua sempre fui. Lavava tuas calças de linho mais delicadamente que minhas próprias mãos, passava tuas camisas com todo o zelo que podia lhes conferir.
Fui me acabando na beira do fogão, só pra fazer tuas vontades, num dia vatapá, no outro carne de sol, isso quando não decidia com a comida já na mesa, que dormiria em jejum, porque tinha me atrasado.
Esforçava-me tanto, que parei de me cuidar. Os cabelos, já não mais os arrumava, desisti do batom, assumi as constantes olheiras, tudo pra lhe agradar. E olhe só, minha água-de-cheiro acabou e desisti também dela, sentia-me até mais a vontade em exalar tempero, era minha marca de esposa dedicada.

No início nem percebi, estava sempre tão cansada pra tudo que nem reparei, meu amor, que você já não me queria mais. Deixei de ser tua musa e aos poucos, só me criticavas. Chorava calada com as marcas de batom que começaram a rondar tuas camisas, agora já gastas. Engolia em seco quando chegavas tonto da rua, bêbado, mordido, chupado.

Fui me matando de desgosto, dia-a-dia, enquanto tu parecias estar com tua vitalidade renovada. Ofereci-me por uma ou duas vezes, tu sempre se esquivavas, até o dia em que começaste a realmente, desprezar-me. Não mais fazia questão de esconder a maldade no olhar, parou de comer em casa, de dormir em casa, até o dia em que me resolver aparecer antes do serviço. Disse-me que tinha perdido o emprego, disse ainda que ia embora. Chamou-me de velha enrugada, falou que parecia ter sessenta no auge de meus quarenta. Agora dizia-me, tinha cinco, seis; uma parada cada dia da semana. A pensão pagaria, garantiu. Deu-me ainda uma última ordem: 'vá ser feliz, mulher'.

Saiu porta afora com uma malinha desmantelada e nunca mais voltou.

Por dias, continuei a passar as roupas que havias deixado, a cozinhar teus pratos preferidos, a acreditar que voltarias, meio bêbado, dirias meia dúzia de insultos e impropérios e dormirias no chão, como de costume. Sem saber o que fazer, peguei-me te obedecendo novamente, ainda que por uma última vez. 
Larguei o avental no tanque e comecei por mudar as roupas, troquei os velhos vestidos de chita por outros mais delicados, uns de seda, outros de renda, aqueles que despertavam olhares. Gostei do rubor que vi em minha pele quando senti o olhar de outro homem em mim, depois de tantos anos era bom ser desejada. Cuidei do cabelo, comprei maquilagem e olhe lá, até água-de-cheiro voltei a usar. Rasguei-te os ternos velhos, desfiz-me de tuas metades. Precisava de completude, de homem inteiro. Sentia na pele a dureza do abandono, resplandecia no entanto, a alegria de quem redescobrira a vida.
O fogão era agora amigo velho, aposentado. Frequentei as casas de chá, as mais belas peças de teatro. Conheci homens de verdade, que não me ordenavam, que não queriam que me desfizesse de mim pra agradar-lhes.

Um dia, avistei-te. Seria bobagem dizer que não mais te amava.
Já grisalho, amarrotado, sozinho numa mesa de bar. De longe, não me viu. Fui levada pra perto, queria ver, precisava observar no que tinhas te tornado.
Estavas ali, exalavas álcool, no rosto, as marcas da idade que tanto apontavas em mim. Nos cabelos, os fios brancos que eu havia, depois de tudo, aprendido a disfarçar.
Tua face era mistura de sujeira e dor. Não parecias nem de longe, meu marido.
Não me reconheceste de início. Explicou-me que perdera tudo no jogo, possuía uma única peça de roupa, não tinha teto, não tinha nada. Convidei para um banho, disse que poderia ficar, se quisesse, sem qualquer compromisso marital. Não aceitou, disse-me que não suportava olhar em meus olhos. Levantou-se e foi-se embora, com desgosto falou que se arrependera de ter me mandado tanto e ainda, que não queria que eu estivesse tão feliz.


Nunca mais te vi.
Nunca mais te quis.
Nunca mais por ti sofri.

domingo, 9 de dezembro de 2012

após os dez.

Quando você me deixou, sem carta ou palavra de adeus, não lhe compreendi. Achei que você, sempre tão doce, havia resolvido me fazer uma surpresa; alugar um apartamento novo, escolher um destino de férias.
Quando seu celular não atendeu, nem por um minuto me desesperei. Éramos um casal ideal, que emanava alegria do lado de fora. Sabíamos muito bem como esconder nossos problemas. Sabíamos sorrir quando fosse a hora.
Foi isso até que fiz, quando os dias foram se passando e você jamais voltou.

Até hoje, não sei o que aconteceu, você nunca mais me procurou.
E nessa história toda, fui passo-a-passo, entendendo o quanto lhe amava.
Assisti mil vezes os vídeos do nosso casamento, das nossas férias, nossos sorrisos tão felizes, nossa paixão tão intensa. E vi o quanto deixei tudo aquilo morrer, quando me recusava a lhe ouvir, porque não tínhamos os problemas dos outros casais, porque na minha cabeça, éramos apenas nós, éramos tão feitos um para o outro que jamais poderíamos ter discórdias. Agora entendo perfeitamente o quanto lhe sufoquei, impedi que fosse quem era. Tentei moldar nossa relação de uma forma doentia e só me preocupava com o exterior, só conseguia ver problema no que pensavam de nós.


Eu nos destruí.

Ainda sinto seu perfume na sala, tenho até comprado sua fragrância Givenchy para borrifar sobre meus travesseiros. Parece que, quando durmo com seu cheiro consigo me livrar daqueles sonhos que tive, quando finalmente entendi que você tinha ido embora.
Sua escova de cabelo, que você esqueceu de levar, guardei em um relicário. Olho todo dia, mesmo depois de 10 anos. Ainda choro quando lembro dos seus fios loiros e sedosos. Lembro-me bem de pentear seu cabelo, de fazer-lhe carinho, de tê-la sobre meus braços. Apunhalo-me quando sei que deixei tudo isso ir embora.
Guardo também os cabides que você deixou e a camisola de renda preta que voltou da lavanderia quando você já tinha se evaporado. Nunca mais conheci alguém que me desse tanta vontade de viver como você fazia, conformei-me com a ideia de que continuarei para sempre sozinho, refém de meus próprios medos.
Diminui minha carga horária no trabalho, como sempre me pediu, mas não tenho com quem gastar meu tempo extra. Para ser realmente sincero (como sempre ressaltava), minha vida se resumiu na contemplação do passado. Criei um altar ao pés de nossa cama para você, lá, guardo o relicário com sua antiga escova, frascos do seu perfume preferido e também, pendurada em um dos seus cabides com monograma (até hoje ainda tenho uma centelha de esperança que você voltará para buscá-los), sua camisola. No mais, revelei todas as nossas fotos da época, elas preenchem meu vazio. Por vezes, mergulho tanto em nós, que acho que vou enlouquecer. Torço para que isso aconteça. Até a loucura seria menos angustiante que esse tormento.

Ah, meu bem, como eu lhe amo. Como a cada dia fico mais e mais apaixonado por você.
Não posso ver o nome Laura escrito em qualquer lugar sem que uma lágrima desça do meu rosto.
Por vezes, tinha até vontade de saber que você movimentou nossa conta conjunta, só pra saber que está aí, viva em algum lugar. Nunca tive coragem de promover uma investigação. Sei que fez o que lhe parecia correto e jamais interferiria em qualquer decisão. Laura, Laura, Laura. Como os dez últimos anos foram um tormento na minha vida. Como você pôde fazer uma coisas dessas comigo, meu amor?
Porque não deixar, ao menos, uma palavra de despedida?
Anseio tanto pelo dia de minha morte, penso que talvez, se um dia conseguir chegar ao céu, verei você lá de cima e poderei entender o que foi que você fez, o que foi que eu fiz, por que nós nos arrasamos tanto assim.
Ainda lhe ouço abrindo a porta, dando suas habituais batidinhas do trinco do elevador, nossa comunicação secreta, meu tranquilizante diário. Será que quando você foi embora, você o fez? Ai Laura, por que você não só me diz que está bem? Que posso parar de me preocupar todo dia, se você está comendo como a princesa que era, ou se veste-se como a duquesa que sempre fora? Ah Laura, como sempre quis lhe dar o mundo, e agora, como quero tirar-me a vida, só pra poder lhe ver novamente. Será que você jamais se arrependeu do que fez?

Ah, minha flor-de-lis, vou agora dormir. Já estou velho e acabado, sem saúde, sem alegrias. Mas quando durmo, com seus travesseiros de pena de ganso, seu cheiro maravilhoso e olhando para as nossas fotos, sinto-me por um segundo, imensamente feliz. Já lhe tive, já foi você, minha. Ao menos, tenho ainda nossas lembranças. Talvez nossa conexão não possa ser rompida, ao menos, nos meus sonhos, jamais será.



Boa noite, minha vida.
Boa noite, minha Laura.
Sempre seu, E.




"Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida"