Escrava tua sempre fui. Lavava tuas calças de linho mais delicadamente que minhas próprias mãos, passava tuas camisas com todo o zelo que podia lhes conferir.
Fui me acabando na beira do fogão, só pra fazer tuas vontades, num dia vatapá, no outro carne de sol, isso quando não decidia com a comida já na mesa, que dormiria em jejum, porque tinha me atrasado.
Esforçava-me tanto, que parei de me cuidar. Os cabelos, já não mais os arrumava, desisti do batom, assumi as constantes olheiras, tudo pra lhe agradar. E olhe só, minha água-de-cheiro acabou e desisti também dela, sentia-me até mais a vontade em exalar tempero, era minha marca de esposa dedicada.
No início nem percebi, estava sempre tão cansada pra tudo que nem reparei, meu amor, que você já não me queria mais. Deixei de ser tua musa e aos poucos, só me criticavas. Chorava calada com as marcas de batom que começaram a rondar tuas camisas, agora já gastas. Engolia em seco quando chegavas tonto da rua, bêbado, mordido, chupado.
Fui me matando de desgosto, dia-a-dia, enquanto tu parecias estar com tua vitalidade renovada. Ofereci-me por uma ou duas vezes, tu sempre se esquivavas, até o dia em que começaste a realmente, desprezar-me. Não mais fazia questão de esconder a maldade no olhar, parou de comer em casa, de dormir em casa, até o dia em que me resolver aparecer antes do serviço. Disse-me que tinha perdido o emprego, disse ainda que ia embora. Chamou-me de velha enrugada, falou que parecia ter sessenta no auge de meus quarenta. Agora dizia-me, tinha cinco, seis; uma parada cada dia da semana. A pensão pagaria, garantiu. Deu-me ainda uma última ordem: 'vá ser feliz, mulher'.
Saiu porta afora com uma malinha desmantelada e nunca mais voltou.
Por dias, continuei a passar as roupas que havias deixado, a cozinhar teus pratos preferidos, a acreditar que voltarias, meio bêbado, dirias meia dúzia de insultos e impropérios e dormirias no chão, como de costume. Sem saber o que fazer, peguei-me te obedecendo novamente, ainda que por uma última vez.
Larguei o avental no tanque e comecei por mudar as roupas, troquei os velhos vestidos de chita por outros mais delicados, uns de seda, outros de renda, aqueles que despertavam olhares. Gostei do rubor que vi em minha pele quando senti o olhar de outro homem em mim, depois de tantos anos era bom ser desejada. Cuidei do cabelo, comprei maquilagem e olhe lá, até água-de-cheiro voltei a usar. Rasguei-te os ternos velhos, desfiz-me de tuas metades. Precisava de completude, de homem inteiro. Sentia na pele a dureza do abandono, resplandecia no entanto, a alegria de quem redescobrira a vida.
O fogão era agora amigo velho, aposentado. Frequentei as casas de chá, as mais belas peças de teatro. Conheci homens de verdade, que não me ordenavam, que não queriam que me desfizesse de mim pra agradar-lhes.
Um dia, avistei-te. Seria bobagem dizer que não mais te amava.
Já grisalho, amarrotado, sozinho numa mesa de bar. De longe, não me viu. Fui levada pra perto, queria ver, precisava observar no que tinhas te tornado.
Estavas ali, exalavas álcool, no rosto, as marcas da idade que tanto apontavas em mim. Nos cabelos, os fios brancos que eu havia, depois de tudo, aprendido a disfarçar.
Tua face era mistura de sujeira e dor. Não parecias nem de longe, meu marido.
Não me reconheceste de início. Explicou-me que perdera tudo no jogo, possuía uma única peça de roupa, não tinha teto, não tinha nada. Convidei para um banho, disse que poderia ficar, se quisesse, sem qualquer compromisso marital. Não aceitou, disse-me que não suportava olhar em meus olhos. Levantou-se e foi-se embora, com desgosto falou que se arrependera de ter me mandado tanto e ainda, que não queria que eu estivesse tão feliz.
Nunca mais te vi.
Nunca mais te quis.
Nunca mais por ti sofri.
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