A Menina que
perdeu os óculos por ali andava. Infeliz. Não mais via brilho em nada, tampouco
via o amor. Sentir não lhe bastava, queria enxergar. Passavam-se os dias e os
óculos permaneciam perdidos.
Primeiro,
deixou de ver os rostos amados, transformando-os num borrão de raiva, rancor.
Eles viam, ela não, malditos! E foi assim que rapidamente, não quis mais deles saber.
Pai, mãe, tia, todos ela tratava com grosseria. Ignorava gestos de carinho. Um
a um, todos afastou. Havia também o Amor. Aquele que fazia seu coraçãozinho
saltar do peito, ruborizava suas bochechas e roubava-lhe o ar.
Ah,
esse passou por maus bocados! No início, foi nele que a menina se abrigou. Seu
cheiro era um refúgio, agora que mais nada podia ver direito. Sua sombra era
ainda a mais bonita, e o som de seu coração, o maior tranquilizante que a
Menina podia ter. Mas aos poucos, foi se sentindo perdida. Já não sabia mais
como chegar até o Amor. Não conseguia abrir portas, tropeçava nas amarras que
eles mesmos se entrepuseram e, aos poucos, deixou de visitá-lo.
A
Menina sentia-se agora cega, de raiva. Parecia tão estúpido que ninguém achasse
seus óculos. Ela que antes via carinho e amor em todos, agora já não via mais
nada. Passou a fechar os olhos toda vez que o Amor chegava para vê-la. Não
queria mais saber dele também. Era outro que não a ajudava, que não se dedicava
o suficiente.
Todo
zelo era turvo para a Menina que não enxergava. Todo o afeto era embaçado e foi
assim que ela se livrou de todos aqueles que não a ajudavam o suficiente.
Estava agora segura, sem ameaças, sem ninguém pra lhe ser incompleto. Sem pai,
sem mãe, sem Amor, só ela e pronto.
Então
um dia, a Menina por acaso, tropeçou nos seus óculos. Assim, do nada, os achou.
Ao recolocá-los no rosto, magicamente, via tudo. Logo foi procurar os seus para
contar-lhes a boa nova. Que estranho, pensou a Menina, tudo está claro e não
vejo ninguém. Mas ah, que ironia! Desembaçado estava o mundo sim, todavia,
aqueles que lhe conferiam mais brilho agora estavam iluminando outras pessoas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário