É proibido atrasar
Envelheço numa velocidade imprudente há dois anos - 730 dias em que vivi uma década, piscando os olhos apenas um par de vezes.
As feições mudaram e o peso de existir também. Crescer dói. Não mais nos joelhos, mas na alma.
Cada novo dia - essas 24 horas em que nascemos e morremos e nascemos de novo - tornou-se, ridiculamente, uma eterna luta contra os ponteiros do relógio.
Correndo pra lá e pra cá desisto de não me atrasar e coloco uma música, cruzando secretamente os dedos para que o metrô demore e eu possa ouvir só mais uma entre uma estação e outra. - Carioca. Botafogo. Siqueira Campos. Menina, presta atenção, desliga o som e guarda esse celular que tá tudo muito perigoso. -
Entre chegadas e partidas, vi muitos amores irem embora, alguns se despediram, outros, jogaram-se no mundo de tal forma que, as vezes, penso que sequer despediram-se deles mesmos.
Tic tac.
E o tempo passa sem que eu me dê conta do que estou fazendo com ele, ou comigo. Acho que se tivesse que lançar um time sheet da minha existência, ele estaria constantemente no negativo. E atrasado.
Nele, debito quotidianamente pedaços de alma, de vitalidade. Tenho medo, contudo, de me perguntar o que recebo em troca. Receio saber, intrinsecamente, a resposta.
E amanhece mais uma vez sem que eu tenha dormido.
Por mais um dia, aceito e destilo um punhado de venenos e conceitos tortos, para ora, que ironia, ser aceita nesse lixo que denominamos sociedade.
Com efeito, aprendi a conviver com o inaceitável, apenas porque não tenho tempo para não o aceitar.
Certa vez me perguntaram porque gosto tanto de pontos, ao invés de vírgulas. Não me lembro do que respondi. Devia, contudo, ter dito que pontos representam pausas maiores do que vírgulas. Estou precisando, desesperadamente, de mais pontos.
Sinto-me constantemente angustiada, principalmente quando noto que as sessões-coruja estão cada vez menos frequentes. Enquanto que os conselhos sobre produtividade e aproveitamento do tempo se multiplicam.
Conselhos esses vindos, perdoem-me os fãs da autoajuda, de quem não tira pra si um segundo sequer do seu dia.
E é buscando essa pontualidade intangível e cada vez mais distante, que vou, proporcionalmente, abandonando essa luta.
Sem fôlego, conformo-me com Os Minutos Felizes - tempos bons, que, cruzo os dedos aqui de novo, agora abertamente, hão de durar até o fim.
E com esse pensamento, hoje tenho tempo apenas para sentir uma saudade - de um velhinho que chegava com antecedência a qualquer lugar - e que apesar disso, quis muito ter se atrasado para ir embora.
Pena que esse compromisso, ao contrário de tantos outros, importantes, significativos e ora, pouco lucrativos que se têm ao longo da vida, nem ele nem ninguém jamais conseguiu adiar.
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