terça-feira, 17 de maio de 2011

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Havia morbidez ali, mas ele não a sentia.
Já havia se acostumado ao ar gélido e a sensação de estar sempre sozinho; só não conseguia aceitar que ela havia partido.
Ainda sentia a leve essência de almíscar quando acordava e o sabonete de ervas estava intacto na bancada da pia, ainda que soubesse que aquilo só o arrastava para uma imensidão negra. Não sabia, porém, o que fazer, estava derrotado, acabado.
As cinzas, atiradas ao mar, eram seu subterfúgio. Quando sentia sua falta, era ali que se confortava, o barulho da ondas era como música, a mais linda canção, cantada pela voz dela. Amadeiradas memórias de um passado complexo, irritantemente paradoxal. Arrependia-se agora das inúmeras brigas, das inconstâncias e dos telefonemas desligados sem qualquer sinal de adeus. Era tarde.
Mergulhou então, com o calção que ela mais gostava: coqueiros. Abriu os olhos buscando uma cinza, um sopro de consolo; não achando nada tornou a fechá-los, eternamente.

Um comentário:

  1. porra Cheriin! arrepiei.
    seus textos tão cada vez melhores, parabéns !

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