sábado, 25 de fevereiro de 2012

para L. em homenagem a suas bodas de papel (ou quase isso)

É engraçado porque você sabe que ele não vai vir e ainda continua esperando.
Você sabe que ele não vai mais entrar por aquela porta, sempre no mesmo horário, alucinado por alguma coisa para comer e sempre bagunçando a sala que você havia acabado de arrumar.
Você sabe que sua cama agora estará sempre seca e que as toalhas molhadas sempre estarão no varal. Ou melhor, a toalha molhada.
Você sabe que a pia do seu banheiro se manterá impecavelmente limpa, porque não haverá mais ninguém para apertar a pasta de dente no lugar errado e deixá-la melecando tudo.
Você sabe que se não comprar novas meias logo, sentirá muito frio nos pés, porque não haverão pares gigantes à sua inteira disposição.
Você simplesmente nota que a pilha de roupas sujas não vai se reduzir o quanto você imaginava, a única diferença é que agora não aparecerão mais cuecas em locais inusitados, como debaixo da cama ou até mesmo dentro da sua fronha limpa.
E o tempo vai passando e a pilha de jornais intocados se acumula sobre a mesa de café da manhã e o controle remoto já não precisa ter as pilhas trocadas semanalmente.
Então você se acostuma a trancar a porta cedo, a dormir de janelas fechadas, a abraçar travesseiros sobressalentes (porque você já não sabia mais o que fazer com tantos) e por fim, a parar de querer colaboração na arrumação da casa.
É justamente aí que você começa a sentir falta daquele sorriso mal barbeado, da roupa de cama úmida e do espelho do banheiro totalmente rajado. Você quer de novo saber que alguém trocou as escovas de dente de lugar e se estressar com isso.  Por um minuto meio louco você sente até falta de todo dia limpar o ralo do box.
Você quer ter lama no tapete nas noites chuvosas e cuecas penduradas no parapeito de suas janelas.
Você implora por ter de novo alguém para trocar as lâmpadas (que não seja o porteiro) e matar aquelas baratas gigantes que brotam na área de serviço.
Você de repente sente uma vontade enorme de dar descarga no banheiro e abaixar a tampa do vaso (que já está, infelizmente, abaixada) e anseia por havaianas gigantescas para calçar nas manhãs apressadas.
Você começa a se perguntar a real necessidade de tanta ordem na casa e o porquê do congelador de cervejas estar constantemente vazio.
Você começa a querê-lo desesperadamente, cheio daquelas manias que você antes não via como continuar suportando. Você quer tê-lo outra vez, porque você o ama. Você pega o telefone e decide ligar, implorar para que ele volte.
Ele aceita vir para conversar e você se alegra quando ele senta amassando a capa do sofá. Seu sorriso aumenta a medida que ele derrama açúcar no tapete, e você vai enxergando o quanto aquilo faz bem e dá forças para continuar.
Então você descobre que ele já tem outro alguém, que conseguiu amá-lo da forma que era, sem tentar mutá-lo como você tentou.
E aí você percebe que ficou tarde demais. 
Mas ele não vai embora. Ele quer um beijo. E então você já não tem certeza de onde estão suas roupas, mas sabe muito bem onde está a chave que usou para trancar a porta.

2 comentários:

  1. Bi, obrigada por ter me escutado e ter me entendido... e o melhor, ter me ajudado.
    Acho que se nao fosse vc eu já teria pirado...
    Imprimi esse texto e preguei na minha porta, pra eu não repetir isso tudo de novo... Hahaha
    e nem preciso falar da sua habilidade com as palavras... como se nao bastasse a de ouvir e aconselhar.
    Obrigada Bi, mto obrigada!

    L.

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  2. Thank you for the information. Great job you have done and keep it up.

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