é esse vazio tão grande.
essa vontade imensurável de ouvir um te ligo mais tarde pra gente se ver, ali na esquina, no buteco ou em qualquer pracinha. vontade de me sentir destruída de novo, por causa de uma briga e feliz, viva outra vez, quando se fazem as pazes.
essa frieza me incomoda. nasci brasileira, não tenho sangue europeu.
sou quente, gosto de olhar, de confidência, de disse-me-disse, de briga, de fofoca.
gosto de gente que é gente de verdade. que quando sofre, é pra valer. que não mede palavra, que briga, que bate.
gosto de palavras rasgando meu rosto como se tivesse levado uns tabefes. eu gosto é do intenso, do gasto, do que está em uso.
é o sabor de viver mil vezes até a coisa virar parte da gente, feito tatuagem. a felicidade de se ter mil memórias e não uma só.
a falta de necessidade de ficar rememorando um dia qualquer. porque existem mil dias com a mesma intensidade daquele, mil memórias acontecendo hoje, amanhã. é uma emoção inexplicável sentir que o agora permanece na mente, cada vez mais fixo, mais gostoso.
e aí você se depara com gente contente em viver pela metade, se vendo um dia hoje, outro daqui a dois meses, se lembrando de dias nem tão memoráveis, seguindo rotinas fúteis, supérfluas.
é como comprar um caderno novo todo dia e usar uma folha só, e perceber a falta que faz chegar na última página, cheio de orelha, rabisco. um caderno usado. uma vida vivida.
viver pela metade é essa mania que as pessoas de cidade grande tem. de se esconder atrás de suas portas bonitas, de carvalho, pinho ou sei lá que madeiras grossas elas usam pra abafar os sons medonhos que tem dentro de seus apartamentos. viver pela metade é não se descobrir, é parar de se inventar, é permanecer o mesmo pra sempre.
viver por completo é abrir a porta, é construir paredes de vidro, é saber quebrá-las quando for o momento. é se sujar, mergulhar de cabeça no que te aflinge, brigar, xingar e por que não? desculpar.
é ter o que contar aos filhos todos os dias e não um dia só.
é chegar ao fim do dia, não com uma lição de moral digna dos tempos da carochinha, mas com a ansiedade de acordar logo pra ser feliz no amanhecer.
viver é sentir, mudar de pensamento, de opinião. é questionar o certo, é fofocar, falar mal dos outros. é ter intensidade ao ponto de enlouquecer, e extravasar opiniões.
viver é uma repetição de cidades pequenas. ciclos novos e velhos se entrelaçando. dias felizes tornando-se funestos. é parar de correr do que te aflinge, é abraçar o que te faz mal até se tornar o que te faz bem, multiplicar-se, tornando-se vivo.
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