abra sua agenda e observe bem o dia aleatório que lhe apareceu.
passamos tão rapidamente por dias, meses, anos e nem sequer damo-nos conta do que se foi, do que ainda há de vir. vivemos estupidamente alienados em nossas redomas, cheios de nossa zona prática de conforto que nos esquecemos de teorizar o futuro, analisar o passado e fazer o que quer que seja que não esteja simplesmente ao alcance de nossas mãos.
sente-se, saboreie sua percepção. deixe-se sonhar, permita-se divagar.
jamais viveremos bem se nos condenarmos a pensar apenas nos planos possíveis, nas visitas marcadas, nas avenidas percorridas. precisamos de libertação. mais ainda do que precisamos do carro do ano, ou do novo iPhone 5.
necessitamos de atenção interna, de percepções de nossos dissabores. entender o porque de uma dor de cabeça é essencialmente mais importante do que vagar pelas farmácias buscando um tylenol cada vez mais forte. não é justo, pois, que nossa humanidade se reduza a um punhado de lixo radioativo, sem quaisquer chances de reciclagem. somos mais que isso. somos mais que a sombra de um futuro robótico. nossa capacidade está sendo sumariamente subjugada e optamos por nos mantermos reféns dessas amarras político-tecnológicas.
talvez houvesse sido mais feliz quando sentava numa mesa e não era cegada por flashes de fotos para o instagram ou check-ins no facebook, numa realidade em que as conversas por whatsapp não eram mais interessantes que a interação social. um mundo em que bastava sair à praça para ver dezenas de casais perdidos em si mesmos, repletos de um amor real.
até esses namoros bonitos foram transformados em mídia, teletransportados para o skype, para o facetime e quaisquer substitutos do gênero. o calor virou frio, a palavra se abreviou, tornou-se banal.
não era minha intenção exaltar um saudosismo hipócrita de eras analógicas e sem cores na televisão. sou adepta à evolução e talvez ame mais meu notebook do que muitas das pessoas que me rodeiam. mas nem por isso pretendo ser escrava de uma tecnologia que está me substituindo. antes, houve a mecanização do campo, agora temos a mecanização de cérebros, de almas.
só espero um dia poder sentir que a humanidade enfim abriu sua agenda de papel, deixando de lado a preditiva agenda do iOS, e parou pra pensar na importância dos dias se passando. na crucial efemeridade das horas. quando de fato atingirmos essa consciência e passarmos a nos valorizar novamente, dando-nos a atenção que merecemos como seres capazes e inteligentes, passarei de fato acreditar que ainda há uma centelha de esperança. que ainda somos humanos, de corpo e alma. e não máquinas, sem calor e sentimento.
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