as vezes eu penso que o mundo realmente me corrompeu.
perdi todo aquele olhar diferente sobre as coisas, meus devaneios sobre a vida. perdi a vontade de escrever, de ler, de falar.
desisti de tudo o que me fazia bem, fico só vivendo essas coisas que todo mundo vive, bebendo o que todo mundo bebe e tendo as viagens que todo mundo tem.
é como se eu estivesse presa a uma grande avenida, cada vez mais tumultuada, cheia de gente nova, de gente velha, de confusão, de festa e cada vez menos, de intimidade. sigo trilhando um caminho reto, impessoal. um caminho que não permite a aproximação, que pede armaduras, escudos, e muitas vezes, espadas, que aumenta o tamanho dos muros ao redor de mim. preciso me manter impenetrável e ao mesmo tempo volúvel, difusa. elos falsos, ou frágeis, já nem sei. correntes de desgosto, quebráveis ao menor sinal de discordância.
a fragilidade até para de incomodar, quando o novo é tão palpável que já nem se preocupa mais com o velho. o antigo é perda de tempo. adormeci. emburreci. petrifiquei.
parece que você se pluga no 220 e não pára. não se pensa, faz e pronto. porque é assim que tem de ser, senão se fica pra trás. desliga-se da corrente. perde-se o que você já conquistou (e o que é essa merda toda mesmo?). você morre.
minha vontade era ser de novo uma rua de interior. calma, velha, conhecida.
aquela rua em que todo mundo guarda histórias, do tempo de brincava de pique-pega e depois, do tempo que jogou conversa fora num banquinho na calçada.
a verdade é que sei que estou me perdendo de mim, daquilo que antes julgava como essência e não sei se há uma forma de voltar. o sinal da minha avenida não dá trégua, não dá descanso. é tudo questão de fluir com a multidão, de seguir um rumo maldito (ou bendito?) que todo mundo segue, de sentir tudo igual, de ser fácil, fútil.
tenho saudades daqueles que davam conselhos, dos que se importavam de verdade, porque aqui a verdade é que ninguém se importa. nem eu me importo. já gostei muito de problema, hoje, quero é paz. quero uns raros momentos de silêncio, quero dormir numa manhã de ressaca.
tornei-me pior do que aqueles que condenava, não meço esforços, não me importo com as consequências, se eu quero é pra já. continuo ignorando solenemente opiniões importantes e desimportantes, porque elas já não podem me parar.
e por aí ando, de perigo em perigo, procurando algo que me comova, que me tire dessa frieza apática, desse gelo maldito em que me enfiei. e será que há?
temo que a resposta seja não. quero muito recuperar aquele eu assustado, perdido, simples e sobretudo, incapaz de um gesto maldoso contra alguém. quero mas não tento. desisto sem pensar. porque a estrada é longa, amigo. e meu carro não tem marcha-ré.
porque hoje amigo, até sofrer é perigoso.
porque hoje amigo, até sofrer é perigoso.
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