eu juro que um dia acordo com a pá virada e volto atrás em tudo que eu disse. largo de mão toda essa carga passada e me jogo na tentação.
juro mesmo que nesse mesmo dia apago todas as mensagens de texto, todos os inbox e refaço nossa história, aperto o botão delete do meu cérebro e me jogo, como você bem manda todo dia. il faut oublier.
juro que você ainda vai queimar a língua quando me chama disso e daquilo e quando diz que eu não tenho é coragem. coragem eu tenho até demais, você é que não a merece.
não merece mesmo.
ou na verdade eu é que não mereço insistência, adulação.
não mereço mesmo.
erramos tanto e nos perdemos no meio de tantos erros que já estamos errando de novo e nos perdendo dos nossos velhos acertos. erramos quando tentamos e erramos quando decidimos não tentar. você é meu erro e eu sou o seu. e eu sei e você também sabe que esse ciclo de erros só continua e continua, sem vírgula, sem pausa, sem que a gente possa sentar e conversar sem dizer uma coisa que machuque, que não ofenda. porque é excesso de mágoa guardada, é dor demais que já vivemos, sentimos, infringimo-nos.
tenho tido medo de pensar demais e meu cérebro entrar em combustão com tanta antítese, tanto hipérbato. você parece uma frase fora da ordem, uma confusão que se mal arrumada pode virar uma ambiguidade, uma metáfora, um pleonasmo ou até mesmo, perder toda a concordância. e eu já não sei a melhor forma de lhe escrever.
eu não aguento mais, não consigo. il faut oublier.
mas aí respiro de novo e fica tudo mais calmo, arrumo a frase com todas as vírgulas, mudo um pronome possessivo ali e outro aqui e decido finalmente me decidir. e então eu falo errado, erro a sintaxe, perco a paciência e dou vazão a toda dor que anda guardada. aí a frase se bagunça, perde-se no meio de tanta confusão que fizemos em nossas vidas, e tudo volta a ser mais uma lição mal feita, um processo interminável, um looping infinito que olha, cansa.
e como cansa.
talvez as lágrimas que caem agora, ontem e quem sabe amanhã apaguem de vez essa frase mal escrita e levem-na pra longe. pra muito longe. quero que esse rabisco desapareça de mim ou então, que se tatue de uma vez. não dá mais pra aguentar tanto vai-e-vem, essa coisa que parece uma mola de compressão que aperta e afrouxa, um desassossego eterno. olha, não é fácil aguentar o tanto que isso dói, não.
não é fácil acordar todo dia como se tivesse um ferro quente na garganta, que impede de falar tudo o que deseja e acabar de uma vez com isso. ou então o contrário. acordar sem o ferro mas com um nó nas cordas vocais, que vai subindo pro meu olho tão seco, molhando e molhando até transbordar. nó esse que só desaparece com uma ligação, uma maldita mensagem, um maldito sorriso.
e olha, já não somos nós, mas nossos fantasmas cheios de um apego errôneo. fantasmas porque sabemos que devemos ir, buscar outras coisas, buscar a tal nova vida que se encontra detrás do túnel, mas não. só conseguimos continuar aqui nessas amarras, sofrendo e pedindo em vão para que o laço desaperte um pouquinho. pra que pare de ser tão gravata. e ele só sufoca, mais complexo que um golpe de luta, porque não vão haver feridas ou arranhões externos. e eu fico aqui com a alma de fantasma dilacerada.
mas eu juro mesmo que um dia eu acordo e consigo finalmente apertar o delete, seja pro bem ou seja pro mal. porque nesse caso acho que nem nós sabemos propriamente o que é bem e o que é mal. nos perdemos nessa história errada. deixamos de decodificar nossos códigos intrincados em mensagens perdidas numa caixa postal que temos medo de ler e ouvir. não te peço mais que pare. sei que assim como o delete, o stop parece ser ainda mais inalcançável. é lágrima, é sorriso, é estranheza, mas é sobretudo, sinceridade. sei que vamos acabar esgotando esse paradoxo aparentemente inesgotável. porque podemos. porque aprendemos da pior maneira possível as cicatrizes de viver no extremo.
é de gelo ou de fogo. é tudo e mais nada. é ter certeza e não fazer a mínima ideia. é a minha (in)constante e (in)segura indecisão. é dever esquecer?
espero resposta e sei que não será em vão. surpreenda.
Lindo lindo lindo, como sempre. E por favor, abra o correio postal, leia e ouça e quem sabe, reflita.
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