talvez menina, você deva parar de se decepcionar com os outros e começar a se decepcionar consigo mesma. afinal, o que nasce do caos, sempre termina no caos. e vamos lá, você não tem sido a personificação perfeita de toda a espécie de caos existente?
você tem visto o quão difícil é se arrumar, parece que quando você consegue tirar o nó daquela pontinha mínima, fazem-se mais duzentos no meio dessa corda velha que você chama de vida.
você tem visto o quanto essa dor de cabeça pode lhe perturbar, tirar-lhe do sério, e você sabe muito bem o que a desencadeia, mas você está tão inerte que não consegue parar de repetir esse ciclo vicioso, é complicado e acho que talvez, você já tenha desistido.
você tem deixado de viver com o pretexto de não se meter mais em confusão, mas a confusão não é você? a confusão não é tudo que você toca? você se olha no espelho e diz que já não aguenta mais.
você tem se entregado a essa apatia cada dia mais. você vê o quanto é preocupante quando dá vontade de ficar sempre onde está, não importa onde seja. uma vontade louca de nunca mais ter de voltar. e você quer ir pra casa, mas você está em casa. qual casa? você já se perdeu.
e no meio dessa travessia, entre taxímetros e o rebouças você chora. chora porque não sabe mais o que fazer ou pra onde ir. você só pede que tirem um pouco desse peso do seu peito, você de repente pergunta ao taxista se por acaso você não pode colocar sua própria música e quando você se assusta você já está ouvindo Tears Dry On Their Own que é a única coisa que você tem escutado.
e você chora mais e pede pra que o táxi faça a volta, você não quer mais ir pra lá. você senta num bar horroroso, sozinha e pede duas doses de vodka pura, sem gelo. você pega outro táxi e manda ele voar pela porra do rebouças e que só chegue logo, você escuta a porra da música toda e quando toca a campainha tem a impressão de ouvir o mesmo trecho lá dentro também.
e então tudo parece bem, mas você só tem uma vontade louca de ir pra casa. mas qual casa? você quer a sua casa. você sai de lá, menina, num rompante inexplicável e ops ...And this regret I got accustemed to... e você não dorme, porque parece que arrancaram uma parte de você. e você finalmente apaga.
você acorda com uma maldita dor de cabeça, mas essa é diferente, essa tem um gosto de ferro na boca. essa vai passar. e aí você chora e precisa se arrumar rápido. você está atrasada, querida. novamente. e você corre, tropeça, quase cai, mas chega ironicamente, sã e salva. você está salva, por um triz. e você quer berrar e dizer que não aguenta mais. que não dá mais pra ouvir tanta besteira o tempo todo, que não dá mais pra fingir que não está sofrendo. mas ah, sua dor de cabeça já passou. não custa você abrir um sorriso e demonstrar interesse.
interesse? você nem sequer sabe de que porra estão falando mas é tudo melhor que esse eco que fica gritando na sua cabeça. você precisa dizer isso em voz alta. e você faz o contrário e cala a boca e vai embora. sempre. tudo grita na sua cabeça e ao abrir a boca o que você faz é perguntar pro porteiro se chegou alguma caixa pro seu apartamento. e ao mesmo tempo que você pega a caixa pesada cheia de livros inúteis, que vão enfeitar a estante ainda no plástico você percebe que já é tarde demais. que a dor de cabeça chegou. que ela veio pra ficar.
não há ninguém em casa. não há nada além de escuridão. e no escuro você permanece. toma um dois três quatro comprimidos e espera que essa porra passe. não passa e você quer ligar pra alguém e gritar meia dúzia de palavras ao telefone. não passa e você pensa porque diabos você teve de nascer com toda essa porra, com toda essa carga maldita de emoções nos seus ombros. você pega o telefone e liga pro último maldito número das suas chamadas atendidas. você quer gritar, mas a sua maldita voz já não sai mais. você só chora, soluçando. enquanto do outro lado da linha alguém pede que se acalme.
e a dor passa. depois de engolir tudo isso. de permanecer quieta. a dor passa e você dorme com aquele gosto ruim de remédio na boca. você dorme sorrindo feito idiota. porque você é idiota. mas ao menos hoje você conseguiu suportar. seus seriados não te ensinaram, menina, que no final tudo se ajeita? não lhe ensinaram que sempre há um final bom, ainda que não seja o esperado? dorme menina, dorme que dormindo eu não preciso lhe contar que na vida real não é bem assim.
Ah can I play myself again?
Or should I just be my own best friend?
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