quarta-feira, 31 de outubro de 2012

resposta para um idiota.

E você vir me perguntando se estou bem ultrapassa os limites do crédulo. Não sei se você quis ser irônico, sarcástico ou só engraçadinho mesmo.

 "Eu tô bem, nunca estive melhor. Tô bem porque agora não preciso me descabelar se meu celular descarrega e você fica pensando mil coisas. Tô bem porque agora saio com quem quero e na hora que me dá vontade. Tô bem porque voltei a ser quem eu era antes de você. E tomara que você continue bem longe. Arriba, abajo, al centro y adentro".

E sabe por quê? Porque você: o maduro, o pensante, ao invés de ter tentado me mostrar o que eu era, sempre falava em tudo o que eu deveria ser. E por mais que doa odiar-te, eu continuo me esforçando pra cultivar esse sentimento.
Era isso que você dizia, não? Que eu tinha que aprender a detestar quem me fez mal, que eu tinha que manter apenas os bons no meu coração e mais uma série de coisas do gênero.
Pode guardar seus livrinhos de auto-ajuda agora, já que você não tem mais uma garota-problema pra lidar. Por que era isso, não? Tudo uma questão de ser problemática demais pra um cara sério como você.
Foda-se a sua seriedade, você tem medo de se arriscar, de viver. E acha que se fechando nessa sua bolha idiota, rodeado dessa sua gente sem sal que toma café sem açúcar e come arroz integral, você conseguiria ser alguém. Mas você não é. Você não é nem mesmo o que você me disse que ia ser: alguém que ia me tornar melhor, ia me trazer só o bem.

O bem? Fez um mal danado. Porque agora todo maldito dia eu fico pensando que não vai ter motivo nenhum pra querer sair cedo do trabalho. Que não vai haver sorriso nenhum de espera, ou até a bronca preocupante quando eu esquecia o carregador. E que acabaram-se as praias de domingo, assim como as esperas no hall de entrada. Foram-se os jantares, os almoços, e as escolhas de roupas.
E o que dói ainda mais é saber que foi você.

Você, que queria escolher apenas as melhores amigas pra mim, pra que elas nunca me ferissem.
Você que me impedia até de manusear uma faca, com medo de que eu me cortasse.
Você não cortou meu dedo, ou fez fofoca nenhuma.
Você me destruiu.


E agora, eu reverto a pergunta. "E você, como está?".

terça-feira, 23 de outubro de 2012

quando o presente machuca.

abra sua agenda e observe bem o dia aleatório que lhe apareceu.


passamos tão rapidamente por dias, meses, anos e nem sequer damo-nos conta do que se foi, do que ainda há de vir. vivemos estupidamente alienados em nossas redomas, cheios de nossa zona prática de conforto que nos esquecemos de teorizar o futuro, analisar o passado e fazer o que quer que seja que não esteja simplesmente ao alcance de nossas mãos.


sente-se, saboreie sua percepção. deixe-se sonhar, permita-se divagar.


jamais viveremos bem se nos condenarmos a pensar apenas nos planos possíveis, nas visitas marcadas, nas avenidas percorridas. precisamos de libertação. mais ainda do que precisamos do carro do ano, ou do novo iPhone 5.
necessitamos de atenção interna, de percepções de nossos dissabores. entender o porque de uma dor de cabeça é essencialmente mais importante do que vagar pelas farmácias buscando um tylenol cada vez mais forte. não é justo, pois, que nossa humanidade se reduza a um punhado de lixo radioativo, sem quaisquer chances de reciclagem. somos mais que isso. somos mais que a sombra de um futuro robótico. nossa capacidade está sendo sumariamente subjugada e optamos por nos mantermos reféns dessas amarras político-tecnológicas.

talvez houvesse sido mais feliz quando sentava numa mesa e não era cegada por flashes de fotos para o instagram ou check-ins no facebook, numa realidade em que as conversas por whatsapp não eram mais interessantes que a interação social. um mundo em que bastava sair à praça para ver dezenas de casais perdidos em si mesmos, repletos de um amor real.
até esses namoros bonitos foram transformados em mídia, teletransportados para o skype, para o facetime e quaisquer substitutos do gênero. o calor virou frio, a palavra se abreviou, tornou-se banal.

não era minha intenção exaltar um saudosismo hipócrita de eras analógicas e sem cores na televisão. sou adepta à evolução e talvez ame mais meu notebook do que muitas das pessoas que me rodeiam. mas nem por isso pretendo ser escrava de uma tecnologia que está me substituindo. antes, houve a mecanização do campo, agora temos a mecanização de cérebros, de almas.

só espero um dia poder sentir que a humanidade enfim abriu sua agenda de papel, deixando de lado a preditiva agenda do iOS, e parou pra pensar na importância dos dias se passando. na crucial efemeridade  das horas. quando de fato atingirmos essa consciência e passarmos a nos valorizar novamente, dando-nos a atenção que merecemos como seres capazes e inteligentes, passarei de fato acreditar que ainda há uma centelha de esperança. que ainda somos humanos, de corpo e alma. e não máquinas, sem calor e sentimento.







domingo, 14 de outubro de 2012

last tango in paris.


e a verdade é que minha melhor memória dos últimos tempos tem sido aquele beijo.
porque, apesar de ter sido o momento mais breve de toda essa nossa história vai e vem,  foi aquele que selou a impossibilidade de acontecer qualquer coisa além. mostrou que talvez houvesse de fato um sentimento em mentes tão imaturas, cheias de um medo ridículo da não-aprovação alheia.

o quanto perdemos? o quanto ainda vamos perder por causa de tudo isso?
talvez a memória agora seja apenas minha. talvez, eu já tenha sido esquecida e cedido meu momentâneo lugar à outra. eu não sei. e mentiria ao dizer que não desejo que no fundo, não tenha se esquecido.
mas o que é tudo isso no que me meti agora? e eu acho que o fiz, por sua causa. apesar de você não ter a menor ideia da importância que você teve, ou melhor, do quão real ainda é minha lembrança disso tudo.

e no meio de toda essa confusão, eu só queria poder reverter isso tudo. ou melhor, queria que o tempo não tivesse passado e apagado tudo. que talvez não tivesse lançado uma ideia ridícula na minha cabeça, de que seria capaz de suportar e fingir que não tinha importância.
foi por fingir que hoje estou aqui. assim.
ouvindo essas músicas terríveis, que encontram-se em pastas quase inacessíveis da minha playlist maldita. queixando-me por não ter sido mais corajosa, por não ter feito o que eu tive vontade de fazer.
talvez seja sua culpa também. mas, aprendi que ao invés de culpar os outros, eu devo lidar com a minha parcela de responsabilidade antes. e vou dizer, está sendo cada vez mais complicado.

sério, quanta merda eu ainda vou ter de dizer pra assumir pra mim mesma que eu, estupidamente, ainda gosto de você? acho que isso resume tudo.
e também, pelo que eu espero, acaba com tudo.

o fim vem da aceitação,
a coragem só aparece quando somos obrigados a aceitar nossos medos,
e por favor,
não preciso de ninguém pra me destruir novamente, já o foi feito, e vou lhe dizer,
não sou muito boa em consertar coisas quebradas, principalmente, corações.




for you, five words,
get out of my life.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

exagerado.

é esse vazio tão grande.
essa vontade imensurável de ouvir um te ligo mais tarde pra gente se ver, ali na esquina, no buteco ou em qualquer pracinha. vontade de me sentir destruída de novo, por causa de uma briga e feliz, viva outra vez, quando se fazem as pazes.
essa frieza me incomoda. nasci brasileira, não tenho sangue europeu.
sou quente, gosto de olhar, de confidência, de disse-me-disse, de briga, de fofoca.
gosto de gente que é gente de verdade. que quando sofre, é pra valer. que não mede palavra, que briga, que bate.
gosto de palavras rasgando meu rosto como se tivesse levado uns tabefes. eu gosto é do intenso, do gasto, do que está em uso.
é o sabor de viver mil vezes até a coisa virar parte da gente, feito tatuagem. a felicidade de se ter mil memórias e não uma só.
a falta de necessidade de ficar rememorando um dia qualquer. porque existem mil dias com a mesma intensidade daquele, mil memórias acontecendo hoje, amanhã. é uma emoção inexplicável sentir que o agora   permanece na mente, cada vez mais fixo, mais gostoso.

e aí você se depara com gente contente em viver pela metade, se vendo um dia hoje, outro daqui a dois meses, se lembrando de dias nem tão memoráveis, seguindo rotinas fúteis, supérfluas.
é como comprar um caderno novo todo dia e usar uma folha só, e perceber a falta que faz chegar na última página, cheio de orelha, rabisco. um caderno usado. uma vida vivida.
viver pela metade é essa mania que as pessoas de cidade grande tem. de se esconder atrás de suas portas bonitas, de carvalho, pinho ou sei lá que madeiras grossas elas usam pra abafar os sons medonhos que tem dentro de seus apartamentos. viver pela metade é não se descobrir, é parar de se inventar, é permanecer o mesmo pra sempre.
viver por completo é abrir a porta, é construir paredes de vidro, é saber quebrá-las quando for o momento. é se sujar, mergulhar de cabeça no que te aflinge, brigar, xingar e por que não? desculpar.
é ter o que contar aos filhos todos os dias e não um dia só.
é chegar ao fim do dia, não com uma lição de moral digna dos tempos da carochinha, mas com a ansiedade de acordar logo pra ser feliz no amanhecer.
viver é sentir, mudar de pensamento, de opinião. é questionar o certo, é fofocar, falar mal dos outros. é ter intensidade ao ponto de enlouquecer, e extravasar opiniões.

viver é uma repetição de cidades pequenas. ciclos novos e velhos se entrelaçando. dias felizes tornando-se funestos. é parar de correr do que te aflinge, é abraçar o que te faz mal até se tornar o que te faz bem, multiplicar-se, tornando-se vivo.