sábado, 28 de maio de 2011

iminência da ruína

Abraçou a tristeza e finalmente sucumbiu às lágrimas; estremeceu de frio, todavia não havia nenhuma mão amiga a ceder-lhe um casaco, estava completamente sozinha.
Ao fundo, vozes ecoavam pela casa, vozes que ela reconhecia; vozes de gente que não se importava. Chorou um tanto mais, reconheceu o pranto como necessário, o sabor era tão salgado quanto sua existência.
Não possuía a vontade necessária parar enfrentar sua dor ou simplesmente para fechar a janela e parar de tremer. Estava ali, descabelada, inerte.
Sabia que dessa vez não resistiria à tamanha desilusão e pressentia seu fim cada dia mais próximo. Numa última tentativa buscou em sua memória qualquer lembrança que a fizesse querer viver, um patrono só seu; incapaz de achá-la soube que aquele era seu derradeiro momento. Rabiscou uma frase na parede, que ao dia seguinte trouxe além de comoção, a revolta geral. Dizia que fora vencida pelo niilismo aprendido, pelo amargo de ter perdido seus sonhos, mas mais ainda, pelo desgosto de ter se visto sozinha em meio a tantos rostos que antes denominava protetores.



terça-feira, 24 de maio de 2011

ponderação.

É desdito, todavia vivente.
Intrínseco, aflorado em pequenos gestos desprendidos de palavras, atos falhos da mente ou simplesmente, momentos os quais a autenticidade finalmente se mostra.
Máscaras a parte, sempre me senti diferente, profundamente instigada pelo não-fútil, pela magia da aura: o espiritual, o sobrenatural, o não-terreno sempre me influenciaram e foram essenciais na minha constituição como ser. Tento, no entanto, aceitar-me e abrir-me ao mundo, fazendo-o nem sempre tão seriamente quanto o resto das pessoas ditas normais. É brincar de viver, é viver de brincar.
Quimérico, porém, seria afirmar que me desprendi do espírito. Não. Talvez só tenha aprendido a separar momentos, a entender que o tempo não pára e que nem a saudade faz as coisas voltarem no tempo. É fatídico que a rebeldia ainda faz morada no presente, tornando tudo ainda mais complexo e mistificado; exatamente do meu jeito. Entretanto, somente agora percebo que é preciso deixar horóscopos e mandalas de lado e realmente viver, transformar planos em realidade e galgar as escadas da vida. O presente se apresenta, conhecê-lo não é questão de opção.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

devaneio



Tarde fria e arrepio quente
Marcas que afloram memórias
Que fazem sentir
Que tornam a reviver
Unidas ao sono interrompido
Mostram-na que não há motivo sequer para se orgulhar
Cessa a Rosa.


terça-feira, 17 de maio de 2011

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Havia morbidez ali, mas ele não a sentia.
Já havia se acostumado ao ar gélido e a sensação de estar sempre sozinho; só não conseguia aceitar que ela havia partido.
Ainda sentia a leve essência de almíscar quando acordava e o sabonete de ervas estava intacto na bancada da pia, ainda que soubesse que aquilo só o arrastava para uma imensidão negra. Não sabia, porém, o que fazer, estava derrotado, acabado.
As cinzas, atiradas ao mar, eram seu subterfúgio. Quando sentia sua falta, era ali que se confortava, o barulho da ondas era como música, a mais linda canção, cantada pela voz dela. Amadeiradas memórias de um passado complexo, irritantemente paradoxal. Arrependia-se agora das inúmeras brigas, das inconstâncias e dos telefonemas desligados sem qualquer sinal de adeus. Era tarde.
Mergulhou então, com o calção que ela mais gostava: coqueiros. Abriu os olhos buscando uma cinza, um sopro de consolo; não achando nada tornou a fechá-los, eternamente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

video game.

É um turbilhão.
Há milhares de luzes piscantes vindo em minha direção, loucas, incertas. O fogo me procura, o vento auxilia-o. Fugir é fácil, sei da enorme porta aberta que me tirará de todo esse caos.
Meu instinto competitivo no entanto, me orienta a prosseguir e me sinto super mario bros. tentando pular na cabeça de mais uma tartaruga. Todavia, só possuo uma vida e qualquer movimento em falso pode ser terminal. Machuco-me bastante, solto fogo e até consigo voar, trilho uma estrada sem volta, meu caminho jamais será repetido. Caixas de diálogo me orientam, mas a decisão final é sempre minha. Resolvo então prosseguir até o fim, não me render. Acende-se uma luz há muito apagada, preciso me revigorar para vencer a disputa.
Aprendo que apesar de alguns pequenos entraves do caminho, a corrida é contra mim mesma, quem me faz errar sou eu.
A princesa, a felicidade, está logo ali, esperando para ser salva. Esperando não pelo mario inicial, fraco, sem perspectiva, mas pelo super mario, alguém que superou suas dificuldades, que improvisou poderes e percebeu que mesmo frágil poderia sim ser capaz de uma vitória, Bastou para isso, acreditar e tentar, uma vez que super não foi o seu poder, mas a sua confiança.



" É fácil encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias, se a pessoa se lembrar de acender a luz."
Albus Dumbledore

quinta-feira, 12 de maio de 2011

quando nada mais faz sentido

Cada inspiração é facada no seio desprotegido. Complico-me com meus escudos e saio só, aceito todo o sofrimento que me foi designado. Viver é dor, que tortura mentes e corações inaptos, inconvenientemente felizes.
A tristeza deixa de ser sopro e torna-se atmosfera eloquente, substituindo as antigas quatro estações. Não me resta uma lágrima sequer e já se somam as páginas viradas, ignoradas. Sei que devo me manter aqui, firme, mas sinto minha alma se dissolver na fumaça. Minha essência aos poucos some, sem luta, sem resistência. Some sem dar adeus.

domingo, 8 de maio de 2011

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domingo
acalento uma preocupação que não me deixa dormir
um misto de confusão e arrependimento
amargo e sutil

domingo
essa loucura que insiste em permanecer
como se meu estômago precisasse de mais uma sacudida
domingo, ressaca

domingo
essa saudade que traz-me lágrimas aos olhos
saudade dela
saudade de uma vida antiga
saudade do cheiro de maresia
saudade que teima em ficar

domingo
e não sei se quero que chegue logo a segunda-feira
apesar de ruim, ainda é domingo.

e pensar que antes sonhava com esses domingos.

segundo domingo de maio, todo o amor do mundo.

Ainda que tudo se acabe e todos os meus alicerces se dissolvam em fumaça, eu sei que você estará comigo.
Você é a minha única certeza, meu maior amor, e se eu me perder em toda essa confusão, sei que sua mão estará sempre lá, me puxando, me emergindo.
Porque mãe, o amor que eu sinto por você é indescritível, inexplicável, mas sobretudo, eterno.


Não preciso lhe desejar um feliz dia das mães, porque já desejo que seja feliz em todos os outros dias do ano, mas o faço mesmo assim, já que hoje é um dia especial.
E a rosa? Será entregue com todo rigor, mais cedo ou mais tarde. Por ora, aceite essas vãs palavras, que não são capazes de demonstrar nem um quinto do que eu realmente sinto.

Obrigada por existir, sinto tanto a sua falta...




"Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo."       
Caio Fernando Abreu

domingo, 1 de maio de 2011

retrato de um fantasma.


Você, luz na escuridão. Mas não Sol derradeiro, infinito; faísca apenas, um quinto da claridade que eu poderia ter.
Não funciono, porém, com pouca claridade e perdi minhas lentes mais uma vez. Penso em tentar me aproximar de você, entretanto não me movo, esperando que escureça de novo.
Surpreendo-me quando vejo que o ponto cresce, me buscando, vindo ao meu encontro. Será o fim dessa noite permanente? Creio que não, mas por ora basta avaliar a proximidade do ponto, dia-a-dia, e torcer para que ele se torne ao menos uma fonte maior de calor, uma forma segura de enxergar a saída. Não obstante, só imploro para que não me cegue com a luz e deixe de enxergar meus novos caminhos, voltando a viver nessa maldita escuridão.

Tic tac tic tac.