sábado, 30 de abril de 2011

quando se torna constante.


‘Ô menininha terrível’, essa foi a frase que ouvi quando fechei a porta do quarto e passei duas voltas na fechadura. A questão não foi a implicância, que é claro eu já me acostumei, o problema foi a saudade.
Saudade das manhãs ensolaradas na rua Henrique Oswald, das tardes ociosas no apartamento velho e até mesmo do ‘quarteto fantástico (posteriormente, Lords). É tanta vontade de reviver, de sentir tudo de novo, é tanto arrependimento de ter me preocupado tanto com o amanhã, que nem de fato existiu.
Sinto-me sozinha, vazia, inerte. Pela primeira vez me julgo um desperdício de espaço, um nada que fala desconexamente. E a verdade é que talvez eu deva ser ‘terrível’ mesmo, nem imagino mais como é não o ser.
É, meu coração já se foi há muito e acho que mesmo a razão está ficando para trás.


Um conselho: Vá ser feliz, enquanto ainda dá tempo. Mergulhe fundo mesmo, para que ninguém possa te emergir à força.

terça-feira, 26 de abril de 2011

sem sentido.

E a plenitude, onde está? Inatingível, talvez. Sempre há um hemisfério em desacordo, um descompasso de emoções, um olhar que não brilha mais. E então descobrimos que sempre foi tudo uma ilusão, princípio de um gostar que nasceu da hipocrisia, simulação de um bem querer frágil, facilmente mutável, apagável.

“O problema é que a gente vai se apegando aos pouquinhos, e quando vemos já nos apegamos até demais.”

E então? Como fazer?

domingo, 24 de abril de 2011

.

Feche logo essa droga de Caixa de Pandora e pare de me atormentar.
Permita-me conviver com meus demônios sozinha.
Preciso me libertar.
Fácil? Sempre o foi.
Difícil é só recordar, de novo e de novo.
Foi-se, não tem mais como voltar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

rebeldia

talvez ela estivesse certa.
acaso o mundo fosse o errado.
não sabia mais, ignorava.

e a verdade é que não derramaria lágrima alguma
por essa gente pérfida que a rodeava.
não reclamaria mais de nada que lhe era imposto

queria só testar
paciência, nervos e máscaras
queria só afirmar
ousadia?

e por mais uma vez
deixou o rosto às suas mãos
quando sentiu-o queimar
gargalhou.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

falta-me a luz.


Minha querida,
Primeiramente, peço-lhe desculpas pelo que estou prestes a fazer, mas só o faço porque não tenho mais como evitá-lo. Há muito lhe perdi e venho tentando lhe ter de volta. Cada dia com menos sucesso.
Aliás, o sucesso é a causa de tudo isso. O seu talento excepcional trouxe-lhe tantas vitórias, não foi? Enquanto eu fiquei aqui, sempre acompanhando, observando e, depois de algum tempo, nem mesmo isso.
Li numa revista que homens não gostam de mulheres bem-sucedidas, não concordo, uma vez que lhe amo. E é um amor que nem mesmo seu sucesso conseguiu destruir, é um amor que cresce a cada olhar, cada gesto e ultimamente, mesmo sem olhares e gestos, ele continua crescendo.
Só que já não consigo mais só lhe observar, admirar. Tornou-se apenas um reflexo num espelho que não posso tocar, uma miragem que quando pisco os olhos se esvai. Você é a graça da minha vida e não sei como tenho coragem de ir embora, mas talvez, se eu for você se sairá ainda melhor, já que, percebo agora, sou um grande empecilho.
Amo-lhe tanto a ponto de abdicar de você para vê-la brilhar, adoro-a tanto a ponto de colocar meus sonhos em terceiro e até mesmo quarto plano para ver um sorriso nesse rosto delicado.
Por que vou embora? Porque já não vejo mais sentido em dormir e acordar sem você, em chegar do trabalho e não te encontrar e a não ter mais o nosso sábado à noite. Não que você não se esforce, já reparei na quantidade cada vez maior de corretivo que você usa só pra me deixar feliz por uma noite. Já medi o tamanho da sua responsabilidade e já entendi que o resto de tempo que lhe sobra é só meu, infelizmente, para mim é pouco. Vou embora porque a menina com quem me casei (que, diga-se de passagem, não tinha nem um terço da beleza da mulher em que se transformou) não existe mais.
Se morreu não sei, mas penso que sim. Já que faz três anos que tento enxergá-la, com pouquíssimo sucesso, salvo algumas raras exceções. Você está linda com esse cabelo mais curto, só não tive oportunidade de dizer, estava atrasada.

Por uma última vez,
Amo-lhe.
Seja feliz.

domingo, 10 de abril de 2011

utopia ao efêmero.


Onde antes houvera uma mulher agora havia uma tristeza-mulher.
Esta última era o enlace de uma vida com uma sobrevida, era a banalização de tudo que um dia já sentira, era, sobretudo, a desilusão.
Não sabia mais o que era dormir, desaprendeu a respirar sem dor. Tudo estava morto por dentro, somente ela relutava em desaparecer.
Uma lembrança era o fio de sua vida. Viver era a lâmina da derrota.
Sentiu vontade de chorar, mas não possuía mais lágrimas. O pranto foi interno, seu coração foi abalroado mais uma vez, seus pulmões lutaram inutilmente por ar, a garganta esboçou um grito triste, que mais pareceu um gemido trêmulo.
A memória então tomou o lugar do sofrimento, mecanicamente se recordou de um par de olhos verdes e de um sorriso avassalador. Não se acalmou de todo, limitou-se a vagar seu olhar e reduzir as marteladas em seu nobre coração.
Por hora estava bem, ainda respirava.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ingenuidade.


Ele levara morangos com desvelo, por mais um dia. Ainda que não fosse a última vez ela comeu os morangos e o mandou ir embora mais cedo, não o queria.
Ele levara um filme, de coração. Ela disse que assistiria mais tarde e se despediu.
Ele então chegou de mãos vazias, acreditando que ela aceitaria seu amor. Ela o ignorou e foi se encontrar com outro.
Ele esperou que ela saísse e retornou ao hall de entrada, depositando uma flor sobre o porta guarda-chuvas. Não podia deixar de presenteá-la, nem mesmo no seu último dia.
E por uma última vez olhou ansioso para a porta e sentiu que suava frio. Tinha sido assim nos últimos três anos, diariamente.
Apontou o revólver para a cabeça; não se sentia suicida, já que não vivia havia muito. Foi-se esperançoso de piedade. Alguém precisava condoer-se dele,  que só gostava de dar presentes e que era perdidamente apaixonado pela moça errada.

Ela chegou com o outro e notou o corpo ali, riu com escárnio e decidiu que só chamaria a polícia bem mais tarde.

lascivo.

Não podia aguentar mais um minuto sequer daquilo.
Era irônico que naquele dia lágrima alguma houvera saído de seus olhos. Aqueles olhos verdes, herdados do pai. O pai que agora não respirava.
Se recusava em aceitar o fato: estava morto, imóvel como uma estátua. Queria cuspir na cara do médico, quebrar todo aquele hospital sórdido; precisava vingar aquele maldito erro, em vez disso, correu.
Fugiu dali, pegou o primeiro ônibus que encontrou, parou na Lapa. A atmosfera impudica atingiu seus pulmões, cobiçava aquela sensualidade, iria atrás dela até o fim dos tempos. Esquecendo-se do pai morto, do hospital repugnante e do descaso dos médicos seguiu uma mulher que dançava e caiu em seus encantos.
Finalmente chorou, lembrou-se do pai entrelaçado ao corpo da formosa, precisava retornar mas ansiava por mais tempo com aquela mulher. Cinquenta reais foram deixados à mesa de cabeceira, foi-se embora, tomou as malditas providências e decidiu-se a tempo. 
O passarinho se sentiu falcão quando pousou na vida noturna àquela noite. Afinal de contas, "Amélia é que era mulher de verdade"...

terça-feira, 5 de abril de 2011

' I love thee '

Não houveram despedidas, nunca mais haverão.

Uma história que começou no teatro, Romeu e Julieta.
Haviam 2 Romeus e 2 Julietas; eles não contracenavam juntos. A Julieta dele torceu o pé e ela foi obrigada a mudar de par.
No beijo final, perderam-se em seus personagens, transcederam o espírito teatral e mergulharam fundo em seu âmago.
Se apaixonaram então.

Momentos roubados à luz da lua, olhares incertos ao crepúsculo e sorrisos tortos ao amanhecer. Eram tão diferentes, eram tão iguais... Acreditavam na pureza do espírito, acreditavam no calor do amor. Sentiam na pele aquela paixão de Shakespeare.
Ele precisou sair numa tarde quente de domingo, esqueceu-se de ligar contando.
Na pressa não viu o ônibus que avançava o sinal.
Morreu na hora.

Não houveram despedidas, nunca mais haverão.
Apenas uma Julieta martirizada, que já não dorme, nem sente, vive tão teatralmente que chega a incutir pena.
Hoje, sua cortina se fechou e o público pôde, enfim, contemplar o desenlace final.



Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.
William Shakespeare